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quinta-feira, 3 de março de 2011

Ousar partir

“Certa noite, no gueto de Varsóvia, o devoto e fiel rabino Eisik teve um sonho, no qual lhe era ordenado que fizesse uma longa viagem até Praga, para lá descobrir um tesouro escondido, enterrado sob a ponte principal que levava ao castelo do rei. Surpreso, o rabino adiou a partida. Mas o sonho repetiu-se por mais duas vezes. Depois do terceiro aviso, toma uma decisão: pega na trouxa, abraça a mulher e os filhos e mete-se à estrada.
    Após longas semanas de marcha, com os pés em sangue chega à Boémia. A sua emoção é grande ao constatar que a topografia da cidade é exactamente igual à do sonho. 

Infelizmente a ponte está guardada dia e noite por sentinelas e  o rabino não se atreve, portanto, a fazer nenhuma escavação. Limita-se a voltar a cada manhã e a perambular até o anoitecer; fica a olhar a ponte, observando as sentinelas e examinando, sem tentar coisa alguma, a alvenaria e o solo.
     Por fim, o capitão dos guardas, curioso com a insistente presença do ancião, aproximou-se e perguntou-lhe com gentileza se perdera alguma coisa ou se esperava alguém. Era um capitão simpático, apesar de seu bigode feroz e Eisik sentiu afeição por ele. O rabino, com simplicidade confiante, contou-lhe então o sonho, e o oficial recuou um passo, rindo:
     – És, na verdade, um pobre homem! – disse-lhe o capitão. Gastaste os sapatos nessa longa caminhada só por causa de um sonho? Quem, sendo sensato, acreditaria em sonhos? Olha, se eu acreditasse neles, estaria a fazer  o contrário do que faço neste preciso momento. Teria feito uma peregrinação tão tola como a tua, com a diferença de que tomaria a direção oposta, mas chegando, sem dúvida, a um resultado igual. Deixa-me contar-te o meu sonho.
     – Sonhei com uma voz, que me falou de Cracóvia – disse o oficial  da guarda. Ordenou-me que fosse até lá procurar um grande tesouro na casa de um rabino chamado Eisik, filho de Jekel! – riu-se de novo o capitão, com um brilho no olhar.
     – Imagina só, ir até Cracóvia e pôr abaixo as paredes de todas as casas do gueto, onde o nome de metade dos homens é Eisik e da outra metade Jekel! Eisik, filho de Jekel, além de tudo! – e ria sem parar dessa inacreditável pilhéria.
     O modesto rabino, porém ouviu-o com ansiedade. Agradeceu ao amigo estrangeiro e, despedindo-se com uma grande mesura, voltou apressado ao lar distante. Escavou um canto esquecido da casa e descobriu o tesouro que o livrou da miséria e lhe permitiu construir a casa de orações que ainda hoje tem o seu nome."



Aquilo que procuramos longe, está na realidade no mais íntimo do nosso ser, mas só temos acesso a esta revelação no final do caminho. Aquele que não ousou partir, não terá direito a uma pátria: Para conquistar a sua pátria há, primeiro, que voltar-lhe as costas. O caminho mais curto para chegar a si mesmo continua a ser o desvio mais longo. 

8 comentários:

  1. Muito à Paulo Coelho, mas bem verdade.
    "Apenas quando nos perdemos, nos encontramos" - não sei onde ouvi, mas deu-me força para me reencontrar.

    Por isso é que é tão importante a diversidade de culturas e ideias: porque apenas quando bebemos doutros copos percebemos que tínhamos água pura no nosso!

    Obrigada por colocarem setas no nosso caminho: assim a viagem fica mais fácil! :-)

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  2. Sónia
    Agora que falaste é que vi que é um bocado o género, sim. Mas como também dizes: Bem verdade. Já tinha ouvido esta história, mas só a li há pouco tempo num livro da Christiane Singer (As idades da vida). Ela contextualizou-a na adolescência a respeito da necessidade dos jovens errarem, de só conquistarem, de facto, a existência pagando o preço das tentativas, das derrotas, das hesitações... Como ela diz "a juventude é a época da prodigalidade louca, de que a natureza nos dá exemplo na primavera. Da nuvem de pólen, de sementes, de grãozinhos, ciliados ou enfeitados de "penachos" que distribuem as árvores e as plantas, as gramíneas e o silvado, apenas uma ínfima parte atinge a germinação (...)
    E é assim que, a longa e louca errância da juventude acaba, afinal, por se revelar de uma sabedoria enigmática."
    Já tinha pensado postar algo a respeito e depois quando li o teu comentário anterior a respeito do ousar da juventude, entusiasmei-me. E depois, naquela incrível sincronicidade do Universo, a Alexandra (sem eu saber) estava a escrever outro post. Um post que me diz muito porque me fala do tudo e do nada, do "viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo" (como li em Paulo Borges - e suponho que a Alexandra não leu). E depois... a juventude em que "reina e triunfa tudo aquilo que o entendimento não pode conceber: a lei dos contrários é a última prudência da loucura."
    Muito bom, mesmo! Eu é que agradeço a tua maravilhosa companhia nesta viagem. Um grande abraço
    Teresa

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  3. Errata: Li em Paulo Borges, mas como citação do Caminho da Serpente de Fernando Pessoa. A sincronicidade que se revelou é que esta tarde tinha estado, uma vez mais, a reflectir nela a partir das palavras de P. Borges.

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  4. Engraçado que pensei o mesmo que a Sonia. O vosso texto fez-me lembrar o Alquimista de Paulo Coelho. Não li, mas lembro-me de o meu filho me ter dito que a história rodava á volta de um homem que percorreu longas distâncias à procura de ouro e veio encontrá-lo no local de onde tinha partido. Belo texto que mais uma vez nos leva a uma reflexão. Sempre temos a tentação de achar que temos de procurar a nossa felicidade junto de alguém que nos ame, na companhia de grandes amigos ou em outro lugar diferente daquele onde vivemos. Puro engano! Claro que tudo isso ajuda, não há a menor dúvida, mas tenho a certeza, por experiência própria que a chance de sermos felizes está unicamente dentro de nós. Não há ninguém, por mais que tente, capaz de nos fazer feliz, se nós não fizermos um esforço para isso.Para se chegar a esta conclusão é preciso um longo percurso, uma longa experiência de vida; precisei chegar aos 58 para entender e ter a certeza disto. E a propósito de sempre querermos procurar longe aquilo que está dentro de nós, mais uma vez lhes vou contar uma experiência pessoal que vem provar isso mesmo. Vão talvez achar estranho, mas eu também me surpreendi e muito! A minha filha há dois anos teve que procurar ajuda psicológica, pois teve um problema que a abalou muito. Depois de duas ou três sessões a psicóloga aconselhou-a a largar tudo e ir para algum lugar longe da cidade onde morava, talvez o melhor até fosse o estrangeiro. A minha filha respondeu que não podia, pois tinha o trabalho dela; a psicóloga respondeu que isso não lhe deveria importar, pois nem era sequer um bom emprego. Apesar de fragilizada, a minha filha veio alarmada com semelhante conselho e nunca mais lá voltou. Preciso explicar que a minha filha não estava a ser perseguida por ninguém, e muito menos a receber ameaças de morte, pois neste caso abalaria para fora, mesmo sem conselhos fossem eles de quem fossem. Apesar de ser uma jovem adulta,de estar deprimida pelo abalo que a vida lhe deu, ela entendeu que não lhe adiantaria fugir, pois o problema a acompanharia; entendeu que a solução estava dentro dela, embora reconhecesse precisar de ajuda para encontrar nela mesma as forças necessárias para superar; é isso que tem feito, com a ajuda da família, dos amigos bons que nunca lhe faltaram e também com ajuda especializada. No mesmo lugar que a viu ser muito feliz, convivendo com todos aqueles que fizeram parte dessa fase e que não a abandonaram nesta, ela está descobrindo dentro dela a maneira de voltar a sorrir, de voltar a acreditar na vida; continua a dedicar-se como sempre fez ao seu trabalho, tem tentado tudo para se valorizar como pessoa e como profissional e com a força que eu sempre vi nela, está aos poucos a recuperar o brilho no olhar e o sorriso lindo que sempre teve.Talvez quem passe por aqui (talvez vocês também) ache esquisito que eu sempre use exemplos meus para os meus comentários; não é muito usual ver-se isso, eu sei, mas para mim é; acho que só me baseando nas minhas próprias vivências serei capaz de, com maior assertividade, opinar sobre determinado assunto. Sei lá...sou assim; não tenho qualquer problema em falar dos casos que me afetam e deve ser por isso que quem me conhece me defina como uma pessoa aberta e sincera; sou, como costumo dizer, um "livro aberto". Se calhar deveria fechá-lo, de vez em quando, mas, para chegar a isso mesmo, o desvio será longo...não sei se valerá a pena fazê-lo.

    Beijinhos e tenham um bom fim de semana
    Emília

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  5. Emília
    Estive a ver que o texto é de Martin Buber (título meio complicado de pronunciar para mim, mas dá para escrever - Erzahungen der Chassidim), datado de 1950. Não me admira que Paulo Coelho o tenha "adaptado" porque realmente faz o género dele.
    Quanto aos exemplos das suas vivências só podemos agradecer pela confiança que revela e pelo quanto nos oferece, ilustrando aquilo que queremos transmitir. É muito gratificante lê-la em cada uma de suas páginas, Emília, e só podemos estar gratas pelo quanto enriquece este espaço. Um grande abraço e um feliz fim-de-semana

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  6. Gostei mesmo deste post, destas palavras e dos comentários que suscitou.
    De facto, por vezes percorremos longos percursos, com momentos cheios e outros que nos paracem vazios...
    ...mas é o caminho que nos enriquece e permite reflectir sobre o que sentimos quando avançamos, recuamos, partimos, chegamos, voltamos ou ficamos, seja onde for.
    Obrigada ao "optimismo em construção" à Sónia e à Emília!...
    ... mas já agora, perdoem-me se estou perdida e digam-me onde encontrar esse post da Alexandra de que falam que também gostava de ler e que não sei onde procurar!
    Obrigada uma vez mais
    Beijinho amigo
    Isabel

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  7. tinha escrito aqui um extenso comentário que se apagou.
    ... resumindo, embora triste por ter acontecido e não ter jeito para repetir palavras, um pedido de desculpas por não ter visto que a Alexandar era a Alexandra "daqui" e que me tocou profundamente.
    Já comentei... e agradeço do fundo do coração à Teresa à Alexandra todo este percurso, toda esta reflexão...
    gostei profundamente
    Isabel

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  8. Isabel
    Sei bem o quanto nos frustra escrevermos algo longo, espontâneo e depois... Sem mais, desaparece. E agora penso que talvez seja necessário esse caminho mais longo, esse apagar para recuar e chegar, enfim, à essência. Seja como for, Isabel, ler-te preenche-nos sempre o coração. Uma semana tranquila para ti
    Teresa

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