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segunda-feira, 28 de março de 2011

BOA SEMANA!

…o sol brilhe muito para todos e que todas as flores renasçam
…sol, amigos, namorados, boas notas, cinema, praia, música, alegria, tristeza, saudade, amizade, amor, paixão e sorrir muito
…toda a gente possa desfrutar de momentos únicos
…boa disposição, fraternidade, e estar rodeada de gente boa, porque merecemos
…sol, paz, muito amor, muitas cores alegres e muitos pássaros em vez de abelhões
…sorrisos, mesmo que haja chuva. Alegria, mesmo que seja apenas nas pequenas coisas do dia a dia
…desejo o “desejo”
…o sol brilhe sempre e aqueça o coração de todos os homens
…uma Primavera permanente para cada um de nós.
...tratem bem da natureza.

 Aqui vos deixamos algumas imagens da chegada da Primavera à nossa Escola desejando que a semana venha plena de sorrisos, mesmo que no meio desta chuva com que iniciou. Boa semana!
A srª Mira e o sr Flores

sábado, 26 de março de 2011

O email de uma amiga

"Depois do silêncio, o que mais se aproxima de expressar o inexprimível é a música."
Aldous Huxley 

O Toque do Silêncio é universal nas Forças Armadas de quase todo o mundo. No chamado  "Toque do Silêncio" ou "Toque de Recolher", porque é tocado todos os dias às 22H00 e o seu sinal é dado por esta música, executada em pequena parte por um trompetista. Também é tocado em funerais dos militares, quando o falecimento ocorre, no exercício da função. Poucos a conhecem e é lindo ouví-lo, quando executado por uma criança de 14 anos, acompanhada por uma orquestra e depois aplaudida de pé pela plateia e pelos músicos que a acompanharam. É de emocionar qualquer um... BRAVO!!!!! BRAVO!!!!! 




As palavras acima acompanharam este vídeo enviado, ontem, por uma amiga que não lera os nossos posts sobre o silêncio. Pela sintonia que mais uma vez se revelou, ressonância mútua que sentimos (como a existente entre instrumentos musicais), partilhamo-lo convosco. Tal como dissemos aqui a música tem o poder de curar. Ela é o espelho da natureza harmoniosa do Universo. Vivamos a eternidade  interrompendo o silêncio, suspendendo o tempo num ápice fugaz.

sexta-feira, 25 de março de 2011



ENTARDECER (em silêncio)

O movimento do fim do dia recomeça.
É isto a vida? É isto viver?
Trabalhar, comer, dormir, curtir?
Dentista, médico, analista?
Cabeleireiro,boutique, tabacaria?
Carro, autocarro, barco, comboio?
A correr, parado,à espera, a desesperar?
Barulho, apitos, motores, gritos?
Jornais, revistas, folhetos?
Passes, bilhetes, multas?
O corre corre.
O nunca pára.
O mais depressa.
O chegar e o partir.

Entardecer no breve instante em que ficamos (em silêncio).

Alexandra Pelágio, 1982

Reaprender o silêncio



Barulho, palavras vazias, interrupções constantes, zunzunzuns, conversas paralelas, toques de telemóvel, decibéis sobre decibéis…  A nossa sociedade precisa de reaprender o silêncio. Reaprender a  escutar-se e escutar.

domingo, 20 de março de 2011

BOA SEMANA!

                                             Amendoeira em flor, Van Gogh

GLÓRIA
Depois do Inverno, morte figurada,
A primavera, uma assunção de flores.
A vida
Renascida
E celebrada
Num festival de pétalas e cores.
Miguel Torga


O novo ciclo da natureza convida-nos a sorrir. Lembra-nos que o início de algo só pode começar com o fim de outro: O fim de agruras, dias cinzentos, nuvens que nos tolhem. O início de dias límpidos, novos sabores e intensidades, porque há sempre uma hora para a recriação, para renascer. Saiamos das nossas casas, irrompamos como raios de sol das nuvens que nos encobrem e celebremos a Primavera. Participemos deste concerto com que a Natureza nos brinda.

A FONTE
Com voz nascente a fonte nos convida
A renascermos incessantemente
Na luz do antigo sol nu e recente
E no sussurro da noite primitiva.
Sophia de Mello Breyner
 
O que nos faz vibrar na Primavera
não são as cores garridas,
os sons da alegria e o ar quente.
É o espírito silencioso e profético
de infinitas esperanças,
e a antevisão de muitos dias felizes
Novalis

sexta-feira, 18 de março de 2011

Lua cheia

Sábado – Dia 19 de Março de 2011

Uma Grande Lua no Céu – Terapia do uivo


O mundo vai poder observar a maior lua cheia das últimas duas décadas no próximo sábado.


Podíamos aproveitar para a celebrar. Como? Só me ocorre fazê-lo com um imenso e colectivo uivo humano. Sentido, alegre e em plena fusão com a natureza. Não quero lançar nenhum movimento do uivo, nem convocar comportamentos considerados animalescos via net, mas somente sugerir um grito de libertação e exaltação da vida, diferente. Os mais inibidos podem uivar em silêncio. Os mais ousados fazê-lo a alto e bom som, a sós ou em grupo.

LUA ADVERSA

Tenho fases, como a lua.
Fases de andar escondida,
Fases de vir para a rua…
Perdição da minha vida!
Perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
Tenho outras de ser sozinha.

Fases que vão e que vêm,
No secreto calendário que um astrólogo arbitrário
Inventou para meu uso.

E roda a melancolia
Seu interminável fuso!

Não me encontro com ninguém
(Tenho fases como a lua…)
No dia de alguém ser meu
Não é dia de eu ser sua…
E, quando chega esse dia,
O outro desapareceu.
                                                                                       Cecília Meireles


TRILOGIA DA LUA

-Amo-te tanto – disse o poeta à lua.
-É por isso que me cantas nos teus versos?
-Quero-te tanto – gritou o poeta à lua.
-É por isso que te abandonas ao meu luar

-É tão tarde – disse a lua ao amante. – Tenho de ir.
-Fica – pediu ele.
-Não posso. Se o fizer a Terra não acorda.

-Queria ser Terra – disse um dia a lua.
-Porquê? - Perguntou-lhe o poeta.
-Para amar o sol.
                                                                                Alexandra Pelágio /1991


segunda-feira, 14 de março de 2011

My wish

Liberdade de Ser e Não Ser

 Não sei de quem é a frase que diz que a felicidade é a realização na idade adulta dos sonhos da adolescência, mas faz-me sentido. Crescer é acima de tudo sermos cada vez mais nós, mais autênticos, mais destemidos, sem o receio do olhar, do juízo, do preconceito. Fácil? Nunca, mesmo com as baterias da auto estima todas carregadas. Possível? Sem dúvida. Com preserverança e desejo de seguir em frente. Acima de tudo, sem a tentação paralisante de que a culpa está nos outros. Afinal, é mais fácil mudarmo-nos do que mudar os outros. Talvez resida aí o início do caminho para a viagem do SER.
Acrescento umas citações às da Teresa:

(...) “ Por vezes, usamos a mente para esconder uma parte do nosso ser de uma outra parte desse mesmo ser.” (...)
in pág.49, O Sentimento de Si, António Damásio, Pub. Europa América, Lisboa

(...) “ Fazer apenas o que a natureza dita só pode agradar àqueles que não conseguem imaginar mundos melhores e alternativos, àqueles que pensam que já estão no melhor dos possíveis mundos.” (...)
  (R. Descartes, 1637, The Philosophical Works of Descartes)
  in pág. 259,O Erro de Descartes, António Damásio, Pub. Europa América, Lisboa

Ode
Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou excluí.
Sê todo em cada coisa. Põe tudo quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.
 Fernando Pessoa (Ricardo Reis)

(…) “ se o Mundo não foi feito para ti, sê feliz pensando que foste feito para o Mundo. És uma página importante do livro da vida. Sem ti, o Mundo estaria incompleto.
  Spinoza

Desculpem-me a presunção: Para quê tantas horas a explicar aquilo que somos? Não há que explicar aquilo que somos. Há que ser. O que os outros pensam é da inteira responsabilidade deles próprios. A nós cabe-nos a lucidez de sermos (e não sermos) e aceitar as consequências. Alexandra Pelágio

domingo, 13 de março de 2011

BOA SEMANA!

"Sê plenamente o que és, meu caro amigo, e torna-te contagiante. Nem aquém, nem além de ti, senão no teu íntimo mesmo, luz do olhar dos próprios olhos. Tu és isso!
Cada pessoa, o dever que tem na vida é ser plenamente aquilo que é e tornar-se contagiante, não no sentido de converter os outros àquilo que ele é – a tentação de muita gente é essa -, mas de os outros serem exactamente aquilo que são: Eles próprios!"
  Agostinho da Silva


 "As flores têm a sua própria cor, textura, cheiro. Nem todo o tipo de flores nasce em qualquer clima ou solo. A sua cor, textura, cheiro são originados de forma orgânica a partir de um meio sócio-histórico e cultural particular (...). 
As flores de plástico não precisam de um solo ou clima específicos. Por vezes parecem reais. Mas nunca se poderão sentir como flores reais."
John Samuel

 Quantas pessoas à nossa volta sofrem em silêncio por sentirem que fogem aos "padrões da normalidade", por terem receio do julgamento alheio relativamente às suas escolhas? Em muitas circunstâncias, não fomos preparados, desde pequenos, para uma aceitação do outro, para estabelecer pontes, dialogar, para conviver com a diferença. E no entanto, cada um de nós é único. A autenticidade é o alicerce da nossa liberdade. A riqueza do nosso planeta reside na diversidade. É na aceitação plena das diferenças sociais, religiosas, raciais que reside um dos grandes desafios do nosso século.

sexta-feira, 11 de março de 2011

A importância do inesperado

Como nos dizem Catarina Rivero e Helena Marujo no seu livro Positiva-mente, as boas soluções para uma vida bem vivida podem ser inesperadas e aparentemente insignificantes. Aquilo que nos salva é, por vezes, bem diferente daquilo que idealizamos. Na imprevisibilidade e simplicidade pode estar um novo sentido para a existência: Só temos que estar receptivos e saborear as boas consequências que o acaso nos pode trazer. É com a transcrição de um excerto do diário do tenente-coronel Mervin Willett Gonin, que esteve entre os primeiros soldados ingleses a chegar ao campo de morte nazi de Bergen-Belsen, que as autoras ilustram o quanto o inesperado pode ser  melhor solução do que aquela que se idealiza.
 

"Não consigo fazer uma descrição adequada do Campo de Horror no qual os meus homens e eu próprio íamos passar o mês seguinte das nossas vidas (...). Havia cadáveres por toda a parte, alguns em pilhas imensas, por vezes sozinhos, outras em pares, nos sítios onde tinham caído.
Demorou algum tempo a habituarmo-nos a ver homens, mulheres e crianças em colapso ao passarmos por eles, e a conseguir impedir-nos de ir em sua ajuda. Tivemos desde cedo que ajustar-nos à ideia de que o indivíduo não contava. Sabíamos que morriam 500 por dia, e que 500 iriam continuar a morrer diariamente durante semanas, antes que algo que pudéssemos fazer tivesse o mais pequeno efeito (...).
Foi pouco depois de ter chegado a Cruz Vermelha britânica - ainda que possa não ter qualquer ligação - que recebemos uma larga quantidade de batons vermelhos. Isto não era de todo aquilo que nós, homens, queríamos, pois estávamos desesperados por milhares de outras coisas. Não sei quem pediu batons. Ah, como eu adorava descobrir quem o fez! Foi a acção de um génio, um maravilhoso e brilhante acto não adulterado. Acredito que nada fez mais por aquelas pessoas que o batom. As mulheres ficavam deitadas na cama sem lençóis nem roupa no corpo, mas com intensos lábios vermelhos; viam-se a deambular sem nada mais do que um cobertor sobre os ombros, mas com intensos lábios vermelhos. Vi uma mulher morta na mesa fria para cadáveres apertando na sua mão um batom.
Finalmente alguém tinha feito algo para os fazer sentir de novo pessoas, sentir que eram alguém, não mais apenas um número tatuado num braço. Finalmente conseguiam interessar-se pela sua aparência. Aqueles batons começaram a devolver-lhes, de novo, a sua Humanidade."

Nota: A referência a este "Manifesto", contextualizado no livro Positiva-mente, também se encontra no óptimo blogue Raça Ambígua.

A culpa é do baton

A CULPA É DO BATON

Olá amiga. Apetece-me comentar o teu post, mas não sei se o que sinto para escrever será adequado ao inesperado trágico do texto e, perdoem-me, ao paradoxo do tragicamente belo. De repente, o disparate, necessário às sextas feiras. ( se tivesses skype podias confirmar via camara), fui colocar baton. É raro fazê-lo. Em mim, não gosto. Quando o faço é quase por achar que tenho de seguir os passos todos da maquilhagem ou porque amigas me dizem que tem de ser. Quando coloco baton, sinto-me artificial. Parece que se me rir ele se vai espalhar e revelar uma máscara que não é o meu rosto. Parece, não, acontece mesmo, que não beijo nem me deixo beijar, porque aquilo é pegajoso e, mais uma vez, me desarranja a pintura. E ,contudo, depois de ler o texto, aqui estou, inesperadamente de baton para responder a um post. Sei que não estou louca, porque acabei o meu dia de aulas a ver o filme "Voando sobre um ninho de cucos" e, só se me fizerem uma lobotomia é que me impedem de dizer que estou mentalmente sã, porque esperadamente louca. Como a Emília dizia noutro dia, desculpem se me estou a expor; como a Isabel escreveu no blog dela num texto de amor ao marido, não é todos os dias que nos abrimos desta forma e....afinal se for do baton? Sim, deve ser...Está decidido. A culpa é do baton. ( e um pouco de um livro que li há anos que se chama a "Loucura da Normalidade") Se o baton devolveu àquelas mulheres a sua humanidade, hoje, inesperadamente, neste disparate pegado, devolve-me a minha saudável insanidade. As recordações de infância em que todos roubamos os batons das mães e nos transfiguramos sem receio de borrar a pintura. Eramos belas e crescidas. Eramos pessoas a sério e não apenas projectos de pessoas.

" As consequências que o acaso" do teu post me trouxe foi relembrar a HUMANIDADE de todos os que passaram (e passam) por campos de horror, é relembrar-me de pequenos gestos, por vezes quase incompreensíveis, mas que têm efeitos extraordinários, que todos podemos fazer, a sós ou em grupo. Para nós ou para outros e/ou com os outros. O coronel Mervin deve ter iniciado uma corrente depois de ter observado o inesperado; tal como as autoras do livro Positiva-mente; tal como tu, agora. Obrigada. Alexandra

segunda-feira, 7 de março de 2011

BOA SEMANA!

"Uma força é tanto mais eficiente quanto mais silenciosa e subtil for. O amor é a mais subtil das forças no mundo."
Mahatma Gandhi

 

 "Um dia, um pensador indiano fez a seguinte pergunta aos seus
discípulos:

"Por que é que as pessoas gritam quando estão aborrecidas?"
"Gritamos porque perdemos a calma", disse um deles.
"Mas, por que gritar quando a outra pessoa está ao seu lado?"
Questionou novamente o pensador.

"Bem, gritamos porque desejamos que a outra pessoa nos ouça", retrucou
outro discípulo.

E o mestre volta a perguntar:
"Então não é possível falar-lhe em voz baixa?" Várias outras respostas
surgiram, mas nenhuma convenceu o pensador.

Então ele esclareceu:
"Vocês sabem por que se grita com uma pessoa quando se está
aborrecido?" O facto é que, quando duas pessoas estão aborrecidas, os
seus corações afastam-se muito. Para cobrir esta distância precisam
gritar para poderem escutar-se mutuamente.

Quanto mais aborrecidas estiverem, mais forte terão que gritar para se ouvirem um ao outro, através da grande distância.
Por outro lado, o que sucede quando duas pessoas estão apaixonadas? Elas não gritam. Falam suavemente.
E por quê? Porque os seus corações estão muito perto.
A distância entre elas é pequena.
Às vezes os seus corações estão tão próximos,
que nem falam, somente sussurram.

E quando o amor é mais intenso, não necessitam sequer de sussurrar, apenas se olham, e basta. Os seus corações entendem-se.
É isso que acontece quando duas pessoas que se amam estão próximas."

Por fim, o pensador conclui, dizendo:
"Quando vocês discutirem, não deixem que os vossos corações se
afastem, não digam palavras que os distanciem mais, pois chegará um
dia em que a distância será tanta que não mais encontrarão o caminho
de volta".

Mahatma Gandhi

quinta-feira, 3 de março de 2011

Ousar partir

“Certa noite, no gueto de Varsóvia, o devoto e fiel rabino Eisik teve um sonho, no qual lhe era ordenado que fizesse uma longa viagem até Praga, para lá descobrir um tesouro escondido, enterrado sob a ponte principal que levava ao castelo do rei. Surpreso, o rabino adiou a partida. Mas o sonho repetiu-se por mais duas vezes. Depois do terceiro aviso, toma uma decisão: pega na trouxa, abraça a mulher e os filhos e mete-se à estrada.
    Após longas semanas de marcha, com os pés em sangue chega à Boémia. A sua emoção é grande ao constatar que a topografia da cidade é exactamente igual à do sonho. 

Infelizmente a ponte está guardada dia e noite por sentinelas e  o rabino não se atreve, portanto, a fazer nenhuma escavação. Limita-se a voltar a cada manhã e a perambular até o anoitecer; fica a olhar a ponte, observando as sentinelas e examinando, sem tentar coisa alguma, a alvenaria e o solo.
     Por fim, o capitão dos guardas, curioso com a insistente presença do ancião, aproximou-se e perguntou-lhe com gentileza se perdera alguma coisa ou se esperava alguém. Era um capitão simpático, apesar de seu bigode feroz e Eisik sentiu afeição por ele. O rabino, com simplicidade confiante, contou-lhe então o sonho, e o oficial recuou um passo, rindo:
     – És, na verdade, um pobre homem! – disse-lhe o capitão. Gastaste os sapatos nessa longa caminhada só por causa de um sonho? Quem, sendo sensato, acreditaria em sonhos? Olha, se eu acreditasse neles, estaria a fazer  o contrário do que faço neste preciso momento. Teria feito uma peregrinação tão tola como a tua, com a diferença de que tomaria a direção oposta, mas chegando, sem dúvida, a um resultado igual. Deixa-me contar-te o meu sonho.
     – Sonhei com uma voz, que me falou de Cracóvia – disse o oficial  da guarda. Ordenou-me que fosse até lá procurar um grande tesouro na casa de um rabino chamado Eisik, filho de Jekel! – riu-se de novo o capitão, com um brilho no olhar.
     – Imagina só, ir até Cracóvia e pôr abaixo as paredes de todas as casas do gueto, onde o nome de metade dos homens é Eisik e da outra metade Jekel! Eisik, filho de Jekel, além de tudo! – e ria sem parar dessa inacreditável pilhéria.
     O modesto rabino, porém ouviu-o com ansiedade. Agradeceu ao amigo estrangeiro e, despedindo-se com uma grande mesura, voltou apressado ao lar distante. Escavou um canto esquecido da casa e descobriu o tesouro que o livrou da miséria e lhe permitiu construir a casa de orações que ainda hoje tem o seu nome."



Aquilo que procuramos longe, está na realidade no mais íntimo do nosso ser, mas só temos acesso a esta revelação no final do caminho. Aquele que não ousou partir, não terá direito a uma pátria: Para conquistar a sua pátria há, primeiro, que voltar-lhe as costas. O caminho mais curto para chegar a si mesmo continua a ser o desvio mais longo. 

"Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida"

Ainda que pareça muito Ser ou Não Ser, tal como defendi em tempos numa peça de teatro que escrevi, a magia está em  Ser e Não Ser. Somos sempre muitos e em muitos tempos e a tentação, para não nos perdermos e nos sentirmos minimamente equilibradas, é ir sendo uma coisa ou outra. Disparate. Podemos ser o tudo ou o nada, porque só dessa forma seremos o todo. Metades, partes, partículas, mais ou menos definidas. Adolescência, experiências, adultos, teorias. Afinal a multiplicidade existe. O desafio e, quem sabe a felicidade, está em ser uno na diversidade. Acima de tudo, deixarmo-nos ir sendo. Nada é apenas 8 ou 80. Nada é apenas branco ou preto. Há todo um universo de matizes e possibilidades. Experimentemos pois, sem medos e sem preconceitos ser o outro do outro que somos. E inventemos diálogos e discussões acesas e frutíferas, como a Primavera que está a chegar, para que tenhamos frutos pessoais e interpessoais porque a empatia nasce aí, nesse lugar onde, se nos colocarmos no lugar do outro, podemos ser tudo - como se fosse a primeira vez.
Alexandra


Metade -  Oswaldo Montenegro


Que a força do medo que tenho
não me impeça de ver o que anseio
que a morte de tudo em que acredito
não me tape os ouvidos e a boca
porque metade de mim é o que eu grito
mas a outra metade é silêncio.
Que a música que ouço ao longe
seja linda ainda que tristeza.
que a mulher que amo seja pra sempre amada
mesmo que distante
porque metade de mim é partida
mas a outra metade é saudade.
Que as palavras que eu falo
não sejam ouvidas como prece e nem repetidas com fervor
apenas respeitadas como a única coisa
que resta a um homem inundado de sentimentos
porque metade de mim é o que ouço
mas a outra metade é o que calo.
Que essa minha vontade de ir embora
se transforme na calma e na paz que eu mereço
e que essa tensão que me corrói por dentro
seja um dia recompensada
porque metade de mim é o que penso
mas a outra metade é um vulcão.
Que o medo da solidão se afaste
e que o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável
que o espelho reflita em meu rosto num doce sorriso
que eu me lembro ter dado na infância
porque metade de mim é a lembrança do que fui
a outra metade não sei.
Que não seja preciso mais do que uma simples alegria
pra me fazer aquietar o espírito
e que o teu silêncio me fale cada vez mais
porque metade de mim é abrigo
mas a outra metade é cansaço.
Que a arte nos aponte uma resposta
mesmo que ela não saiba
e que ninguém a tente complicar
porque é preciso simplicidade pra fazê-la florescer
porque metade de mim é platéia
e a outra metade é canção.

E que a minha loucura seja perdoada
porque metade de mim é amor
e a outra metade também.