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domingo, 21 de outubro de 2012

Que prioridades vivo?

“O que comanda a vida é o afecto, não é o pensar.
Santo Agostinho dizia que é o querer que nos leva e estimula o intelecto e a compreensão; ao contrário do que muitas vezes pensamos. “Eu penso e depois isso passa para a realidade”, dizemos nós. Mas é mentira! Aquilo que eu penso não passa tão facilmente para a realidade, mas é aquilo que eu quero – mesmo – que determina as minhas acções. Só que, às vezes, no fundo, não queremos – ou “ainda não” queremos.
E isto é uma questão muito clara, para responder com franqueza: Que prioridades vivo? As prioridades da razão ou do coração?” 
Vasco Pinto Magalhães, sj


   
 “Tempo é uma questão de preferência. Tempo, quando você quer, arranja. Só que eu estou com mais tempo para outras coisas. Ou seja, no fundo, eu estou preferindo fazer outras coisas (…)
Isso me faz lembrar aquela história em que pediram para uma pessoa escrever uma coisa e lhe disseram que era só para Outubro. Aí a pessoa respondeu que se fosse para Outubro não tinha tempo. Mas se fosse para já, fazia, tinha tempo.” 
Jô Soares
 
O tempo não será, totalmente, uma questão de preferência, pois vivemos, de facto, muito condicionados por tensões profissionais, solicitações que nos chegam de toda a parte, inúmeras pressões que não nos permitem viver o tempo com Tempo. Mas há que reagir e para tal, como nos diz Vasco Pinto Magalhães, é necessário, em primeiro lugar, dar-se conta da mudança profunda dos nossos modelos culturais, do que está subjacente a esta mudança que nos desestrutura. Em seguida, há que assumir, purificar e desenvolver as prioridades do coração; aprender a liberdade no diálogo com os outros; saber dizer não e saber dizer sim. Sem esta sabedoria não há equilíbrio. O equilíbrio que supõe uma escolha exigente,  discernimento e força. Supõe, assim, não vivermos em "equilibrismo" que é querermos compatibilizar tudo, no fundo, estar em todo o lado e não estar em lado nenhum. Há que escolher estar aqui e agora. E depois, há que fazer e responder à pergunta certa: “O que me é realmente pedido que eu faça?”
Sim, porque a vida nos interpela, nos chama a cada momento e fazemos, cada vez menos, a pergunta certa do que nos é pedido e do que está nas nossas mãos, negando os nossos limites. Há que aceitá-los e lidar com esta profunda mudança cultural que nos condiciona e desgasta implica, para além da aceitação, uma abertura e diálogo com a realidade. Só podemos avançar se descansarmos e o descanso tem como ponto de partida um diálogo com as coisas que nos acontecem, viver os problemas em diálogo e não entrar em conflito com a realidade. E, nesse diálogo constante com as situações, com os problemas, captar deles o que interessa e deitar fora o que não interessa. Deveríamos ter, tal como nos computadores, aquele mecanismo de delete, de deitar fora aquilo que não interessa. Deveríamos ter um enorme “caixote do lixo” que nos permitisse um imenso espaço livre para o que realmente importa: O amor e o sentido. 
Fonte bibliográfica:  Vasco Pinto Magalhães, Só Avança Quem Descansa


sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Beleza e Unicidade



O estado supremo da beleza é a harmonia. Trata-se da qualidade ética da beleza. Esta beleza ética permite ao homem conservar a sua dignidade, a sua generosidade e grandeza da alma. (…) Quando saímos e nos deparamos com uma linda árvore em flor, o universo surge-nos como na manhã do mundo. Apenas a beleza é capaz de nos proporcionar este deslumbramento da primeira vez."
 François Cheng
                                              “A beleza salvará o mundo"
                                                       Dostoievski


 
Para perceber a beleza há que fazer todo um trabalho sobre nós próprios. A beleza não vem de si como um dado, é necessário um estado de espírito para a apreender: Esvaziar-se para a acolher. A verdadeira beleza é desinteressada, gratuita e, sobretudo, alicerçada na bondade. Como nos diz José Tolentino Mendonça, citando Dostoievski, sem beleza a vida ser-nos-ia insuportável porque a beleza é a fonte de significado para a vida.
A vida sem significado. Um mundo sem vida. E para que haja vida é necessário que haja diferenciação entre os seus elementos. É a diferenciação que, numa contínua evolução, leva à singularidade de cada ser. Cada erva, cada flor, cada instante, cada um de nós, é único e insubstituível. Cada um é único na medida em que todos os outros o são também (se só eu fosse único e todos os outros iguais, eu não passaria de algo bizarro para ser exposto na montra de um museu…). Assim, a unicidade de cada um só se afirma, revela e adquire sentido perante outras unicidades, graças às outras singularidades. No tempo, cada episódio, cada experiência vivida, é igualmente marcada pela unicidade. É precisamente com a unicidade que começa a beleza. O aparecimento da beleza é sempre um instante único: É o seu modo de ser. Cada pôr de sol, cada noite de céu estrelado, cada olhar de mãe, cada sorriso de criança, cada  flor que desabrocha, nos permitem, a cada instante, sentirmo-nos em sintonia com o mundo. A unicidade transforma cada ser em presença, a qual não cessa de ir em direção à plenitude do seu fulgor que é a própria definição de beleza. A beleza do mundo que nos remete para a nossa unidade interior e permite, enfim, a nossa transcendência no seu esplendor. 

Fonte bibliográfica: François Cheng, Cinq méditations sur la beauté