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domingo, 12 de maio de 2013

Presença e empatia



- “Olá, bom dia! – Disse o principezinho.
- Olá, bom dia! – Disse o vendedor.
Era um vendedor de comprimidos para tirar a sede. Toma-se um por semana e deixa-se de ter necessidade de beber.
- Andas a vender isso porquê? – Perguntou o principezinho.
- Porque é uma enorme economia de tempo – respondeu o vendedor. – Os cálculos foram feitos por peritos. Poupam-se cinquenta e três minutos por semana.
- E com esses cinquenta e três minutos faz-se o quê?
- Faz-se o que se quiser…
“Eu” pensou o principezinho, “eu cá se tivesse cinquenta e três minutos para gastar, punha-me era a andar muito calmamente à procura de uma fonte.”
Saint-Exupéry, O Principezinho

O principezinho leva todo o tempo necessário ao que o vai saciar, revitalizar – todo o tempo necessário para estar onde a vida alimenta e sacia verdadeiramente.
E nós? Vivemos numa época em que comunicamos cada vez mais depressa e cada vez pior. Telemóveis, correio eletrónico, facebook, autoestradas de informação… Sim, trocamos muita informação, mas não alimentamos contactos férteis, não nos encontramos verdadeiramente.
Passamos a vida a dar e receber pílulas para deixarmos de ter sede. É a gestora que telefona sistematicamente ao filho por volta das 19h: "Meu querido a mãe está com muito trabalho e ainda tem uma reunião esta noite, por isso vai chegar a casa mais tarde. Tens uma pizza deliciosa no congelador, é só pô-la no micro-ondas.” Pílula! Não tenho tempo para ti, a pizza há-de substituir um jantar em família. “Meu querido, o pai tem uma reunião importante esta tarde. Tens uns vídeos no armário da televisão, diverte-te.” Não tenho tempo para ti, a minha partida de golf ou a minha reunião de antigos alunos é mais importante. Ou ainda mais subtilmente: “Sei que estás muito triste. Vê se consegues dormir e amanhã, quando acordares, vais ver que já passou.” Pílula! Escutar-te é cansativo e aborrecido, tenho mais que fazer, ainda por cima, já é tarde e estou estafado.
E lá vamos nós a correr, de pílula em pílula, de obrigação em obrigação, espantando-nos de continuar com tanta sede nesta busca insaciável, sempre insatisfeitos de garganta e alma secas. Estamos sentados no único poço realmente capaz de nos matar a sede: a presença a si próprio, presença ao outro, presença ao mundo.
O que mais precisamos é de presença e quando alguém em sofrimento nos procura, a tendência que temos é a de negar o seu sofrimento (“a coisa não está assim tão má, isto já passa, a vida é bela”) ou tentarmos distraí-lo do seu próprio sofrimento (“vem fazer desporto para arejares as ideias”). Pensamos numa série de soluções e bons conselhos para ficar, no fundo, nós próprios descansados e convencidos de ter feito tudo o que era preciso, já que nos ensinaram, sobretudo, a “FAZER” em vez de “ESTAR” e de “ESTAR COM”.
Quando “desbobinamos” todas as nossas soluções, rol de conselhos tranquilizantes, não estaremos a cuidar da pessoa, mas sim de nós próprios, da nossa própria angústia; não estaremos com ela, mas com o nosso pânico, ou culpabilidade só de pensar que podemos falhar no nosso “dever de fazer tudo como deve ser”. Mas se conseguirmos tocar quem nos procura com a nossa empatia, se acompanharmos na sua aflição com toda a nossa presença e benevolência estaremos, de facto, juntos; a pessoa sentirá que não está sozinha e isso faz toda a diferença.
Empatia ou compaixão é focalizar toda a atenção no que se está a viver no momento. Um caminho em que três etapas se destacam:
1ª) Não fazer nada
Realmente ensinaram-nos justamente o oposto: “Não fiques aí especado, faz qualquer coisa”. E acabámos por nos tornar incapazes de simplesmente ouvir sem fazer nada, incapazes de escutar verdadeiramente o outro.
2ª) Focalizar a nossa atenção nos sentimentos e necessidades do outro.
3ª) Parafrasear para tentar tomar consciência dos sentimentos e necessidades em causa – escuta ativa.
A empatia é a chave da qualidade da relação connosco e com os outros. É ela que alivia, vivifica. E... para a empatia não existem pílulas.


 Fonte:  Seja verdadeiro, Thomas d`Ansembourg

5 comentários:

  1. Texto muito interessante e pertinente para os dias que tenho tido; não sei se estou fazendo o certo; mas tento; tive que dormir em casa dos meus pais de sexta para sábado e de sábado para hoje; a minha mãe estava com medo de dormir sozinha, pois o meu pai tinhh caído duas vezes na sexta á tarde e por isso dormi lá; apesar de muito melhor, no Sábado perguntei se ficava mais sossegada se voltasse a dormir lá; disse que sim; dormi e tudo correu bem; penso que a segurança de me ter lá fez com que ela conseguisse dormir.Hoje de tarde fomos dar uma voltinha até à praia e ele estava bem; deixei-os e vou dormir em casa; é só atravessar a rua e estarei lá, se me telefonarem. Tempos complicados , mas que têm de ser vividos. Empatia é importante e com a minha mãe é o que mais importa; tem necessidade de falar e deixá-la fazer isso repetindo-se vezes sem conta é uma luta que eu considero que tenho de travar; com o meu pai não importa; praticamente não ouve e quando ouve agride; a leve demência está a fazê-lo agressivo e isso preocupa-me, pois a mãe é a mais agredida. Vamos ver, Teresa...tenho de facto de treinar o " não fazer nada...simplesmente escutar; não é nada fácil. mas é o que tem de ser feito. Agora vou tentar dormir. Beijinhos, amiga e até sempre.
    Emília

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    1. Creio, Emília, que empatia é mesmo o mais importante. Como diz Thich Nhat Hanh "o presente mais precioso que podemos oferecer àqueles que amamos é a nossa energia de compreensão e amor. Aquilo que os outros mais precisam é da nossa compreensão, amor e olhar profundo - não como ideias, mas enquanto realidade viva." Ensinaram-nos, realmente, que temos de fazer sempre alguma coisa e acabamos por ficar a pensar no que fazer ou dizer àquele que sofre esquecendo-nos que, no fundo, o que ele precisa é da nossa presença inteira (sem estar com angústias de dizer o "certo" ou aconselhar seja o que for). Para isso também temos de mergulhar profundamente na dor. "Para curar uma ferida é preciso limpá-la, olhar bem para a origem da dor, penetrá-la, remexê-la, e só aí deixá-la arejar, descansar, cicratizar." Dói, mas só assim estamos preparados para acompanhar quem de nós precisa e perceber que o que verdadeiramente todos precisam é de PRESENÇA: E é essa presença que é a sua realidade para a sua mãe. Sei que a Emília está por inteiro no seu amor, olhar e compreensão. Um grande e amigo abraço

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  2. Olá, Teresa,

    Muitissimo verdadeiras estas palavras que partilhas. Neste tempo de correria, pouco se pará para ouvir, para estar com, enfim. As solicitações e estimulos são tantos que se tem muita dificuldades em encontrar momentos de silêncio (o que a muitos assusta!). O Estar, compreender o outro, conseguir valorizar a ausência de palavras e a importância das expressões, dos gestos são aspetos tão importantes, que acredito que só sejam conseguidos se a pessoa se sentir em paz consigo. Acredito que é conseguindo cultivar a calma e a serenidade dentro de nós, que conseguiremos estar verdadeiramente disponiveis para lidar com o que nos rodeia e para os outros, e desfrutar ao máximo desta viagem.

    Um beijinho Teresa, e foi um gosto passar por aqui hoje. Que estejas bem.

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    1. Que surpresa boa Joana! Bom mesmo ler-te aqui hoje. Como dizes "é conseguindo cultivar a calma e a serenidade dentro de nós, que conseguiremos estar verdadeiramente disponiveis para lidar com o que nos rodeia e para os outros, e desfrutar ao máximo desta viagem". Para escutar plenamente o outro temos de encontrar em nós segurança, confiança e solidez interior. Uma presença a nós próprios que permite a presença ao outro.
      Muito obrigada pela tua presença, Joana. Um afetuoso abraço

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  3. Queridas amigas

    Para mim,
    os tempos de hoje
    cobram um preço por
    tudo que obtemos
    e este preço se chama amor.
    O consumo é mais importante que o amor.
    O trabalho é mais importante que o amor.
    A tecnologia é mais importante que o amor.
    Assim os que amam parecem seres
    loucos que perambulam pelo mundo
    sem objetivo, sentido ou foco.
    Mas amar é entender que a felicidade
    está na simplicidade de uma amizade,
    de uma família, de uma caminhada
    ou em um momento de distração da alma.

    Preciosa reflexão.

    Ser feliz não é um direito,
    mas um dever...
    Seja feliz... Faça feliz...

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