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sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Beleza e Unicidade



O estado supremo da beleza é a harmonia. Trata-se da qualidade ética da beleza. Esta beleza ética permite ao homem conservar a sua dignidade, a sua generosidade e grandeza da alma. (…) Quando saímos e nos deparamos com uma linda árvore em flor, o universo surge-nos como na manhã do mundo. Apenas a beleza é capaz de nos proporcionar este deslumbramento da primeira vez."
 François Cheng
                                              “A beleza salvará o mundo"
                                                       Dostoievski


 
Para perceber a beleza há que fazer todo um trabalho sobre nós próprios. A beleza não vem de si como um dado, é necessário um estado de espírito para a apreender: Esvaziar-se para a acolher. A verdadeira beleza é desinteressada, gratuita e, sobretudo, alicerçada na bondade. Como nos diz José Tolentino Mendonça, citando Dostoievski, sem beleza a vida ser-nos-ia insuportável porque a beleza é a fonte de significado para a vida.
A vida sem significado. Um mundo sem vida. E para que haja vida é necessário que haja diferenciação entre os seus elementos. É a diferenciação que, numa contínua evolução, leva à singularidade de cada ser. Cada erva, cada flor, cada instante, cada um de nós, é único e insubstituível. Cada um é único na medida em que todos os outros o são também (se só eu fosse único e todos os outros iguais, eu não passaria de algo bizarro para ser exposto na montra de um museu…). Assim, a unicidade de cada um só se afirma, revela e adquire sentido perante outras unicidades, graças às outras singularidades. No tempo, cada episódio, cada experiência vivida, é igualmente marcada pela unicidade. É precisamente com a unicidade que começa a beleza. O aparecimento da beleza é sempre um instante único: É o seu modo de ser. Cada pôr de sol, cada noite de céu estrelado, cada olhar de mãe, cada sorriso de criança, cada  flor que desabrocha, nos permitem, a cada instante, sentirmo-nos em sintonia com o mundo. A unicidade transforma cada ser em presença, a qual não cessa de ir em direção à plenitude do seu fulgor que é a própria definição de beleza. A beleza do mundo que nos remete para a nossa unidade interior e permite, enfim, a nossa transcendência no seu esplendor. 

Fonte bibliográfica: François Cheng, Cinq méditations sur la beauté



 

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