O clown é o palhaço cénico, sutil na
sua apresentação, característica que o diferencia dos demais palhaços reconhecidos
por meio do nariz vermelho que funciona como uma máscara, com um significado que,
de certa forma, lhes oculta a face. A máscara do clown vem para mostrar,
revelar, expandir a face e, ao mesmo tempo, o corpo. O clown também se
distingue pelo seu modo diferenciado de comunicar, de andar, vestir e maquilhar.
Cada clown é único e com cada um podemos aprender muito sobre a comunicação, a aceitação
das nossas fragilidades, a expressão de quem realmente somos, a generosidade, a
emoção, o prazer, a autenticidade, a humanidade.
“Há só uma coisa que eu temo: Não ser digno dos meus
sofrimentos.”
Dostoiévski (citado por Viktor Frankl em O Homem em busca de Sentido)
“A vida significa, em última instância, assumir a
responsabilidade de encontrar a resposta adequada aos seus problemas e
ultrapassar os desafios que constantemente apresenta a cada indivíduo (…)
O que importa não é o sentido da vida, em geral, mas antes o
sentido específico da vida para uma pessoa num dado momento (…)
Numa palavra, cada pessoa é questionada pela vida; e à vida
cada um pode apenas responder sendo responsável.”
Viktor Frankl, O Homem
em Busca de um Sentido
O conceito de “optimismo trágico”, criado por Viktor Frankl,
remete-nos para a questão: Como é
possível dizer sim à vida, apesar de tudo?
Pode a vida reter o seu potencial de sentido apesar da dor,
da culpa, da morte?
A força da resposta a esta questão reside na própria vida de Viktor
Frankl: é no meio do sofrimento que ele, não somente descobre os seus próprios
recursos de sobrevivência e superação, como também a base teórica para o
desenvolvimento da “terapia do sentido da vida”.
Dizer sim à vida, apesar de tudo, subentende que a vida tem
potencialmente significado em qualquer circunstância, mesmo nas mais
miseráveis. Tal, pressupõe:
(1) Transformar o sofrimento em realização e aperfeiçoamento
humano.
(2) Retirar da culpa a oportunidade de nos mudarmos para
melhor.
(3) Retirar da
transitoriedade da vida um incentivo para levar a cabo ações responsáveis.
Como referimos aqui, Viktor Frankl apresenta-nos três vias
que nos conduzem ao sentido da vida:
(1) Criando um trabalho ou realizando um feito notável,
ao sentir-se responsável por terminar um trabalho que depende
fundamentalmente dos seus conhecimentos ou da sua acção.
(2) Experimentando um valor, algo novo, ou
estabelecendo um novo relacionamento pessoal. Este é também o caso de uma
pessoa que está consciente da responsabilidade que tem em relação a alguém que
a ama e espera por ela.
(3) Adoptando uma atitude em relação a um sofrimento
inevitável, com a consciência de que a vida ainda espera muito da nossa
contribuição para com os demais.
A mais importante é a 3ª via: mesmo a vítima indefesa de uma
situação irremediável, colocada ante um destino que não pode mudar, pode
erguer-se acima de si mesma, pode crescer para além de si mesma e, desse modo,
mudar quem é. Pode transformar uma tragédia pessoal numa vitória.
Viktor Frankl não só sobreviveu a horrores inimagináveis,
como também soube dar “sentido” ao seu sofrimento, transformando-o numa vida
plena sentido e ajudando-nos a crescer em consciência e responsabilidade. O seu
livro O Homem em Busca de um Sentidoescrito
em 1946, continua a ser um dos mais influentes de sempre. A sua mensagem
perdura e dá-nos força para enfrentar as adversidades e permanecer optimista,
apesar de tudo.
Nota: Relembramos, ainda, este texto maravilhoso de Anselmo Borges.
"O nosso medo mais profundo é saber que somos mais poderosos do que qualquer expectativa.
Todos podemos brilhar, tal como o fazem as crianças.
E quando deixamos que a nossa própria luz brilhe, damos inconscientemente aos outros a oportunidade de fazerem o mesmo.
Conforme nos vamos libertando dos nossos medos a nossa presença liberta automaticamente os outros."
Marienne Williamson
“Não precisa de se perguntar qual é o seu propósito.
Encontrá-lo-á sempre ajudando os outros (…) Tocar a vida de alguém vale mais do
que qualquer fortuna (…) Não importa a que se dedique (…) o que importa é que dirija
a sua atenção para como servir os outros (…) A vida converte-se nestas três
virtudes: Como posso ajudar, ser amável, sentir veneração.”
Final do
filme “Ambition to meaning: Finding Your
Life´s Purpose”
Vivemos um período de mudanças exponenciais a todos os
níveis. Um tempo em que, se quisermos avançar, temos de fazer como a águia:
Passar por um processo de transformação profunda. As mudanças que enfrentamos
não têm precedentes na história da humanidade e para lidar com elas precisamos,
tal como a águia que se livra do bico, das unhas e das penas, de nos libertar
de costumes, ideias, tradições, medos…
O medo… Uma das grandes amarras que domina as nossas vidas
nestes tempos de incerteza: Medo do que nos espera no futuro, medo da mudança,
medo da perda…
O medo, como a dor, é um reflexo natural indispensável para a
sobrevivência, pois permite detetar, de antemão, circunstâncias perigosas. No
entanto, na nossa espécie, o papel do medo evoluiu e expandiu-se para lá da sua
missão de anteciparmos perigos tangíveis. Angustiamo-nos não só pelos nossos
problemas, como pelos dos nossos familiares, amigos e desconhecidos,
antecipamos situações, danos imaginários, ameaças futuras. Quanto sofrimento
humano causado por males que nunca ocorreram!
O medo (e a ansiedade que se lhe associa) talvez seja um dos
efeitos mais daninhos da época que vivemos. Não obstante, surge-nos, também, um
efeito paralelo: O aumento da solidariedade, da consciência social em amplos
setores da população.
Consciência social é a grande luz do nosso caminho futuro.
Ignoramos como será o mundo dentro de cinco ou dez anos, sabemos que vai ser muito
diferente, mas que os valores e princípios que alicerçam o nosso pleno viver são
os mesmos. E, como diz Sergio Fernandez, “só se pode viver com base no amor ou
no medo”. "Cada decisão que tomamos, cada atividade que desenvolvemos, cada pequeno gesto... fazemo-los movidos pelo amor ou pelo medo." O contrário do amor é, de facto, o medo. Viver sem medos é uma
decisão que nos transporta para a luz que nos resgatará destes tempos difíceis.
É já conhecida a história de Barefoot College (a Universidade
dos Pés Descalços), um dos mais poderosos, inovadores e criativos projetos do
nosso tempo. Retomamo-la aqui pelo quanto nos inspira e alicerça o nosso
acreditar na força dos ideais.
No subcontinente indiano, como noutros continentes, existem
pessoas que vivem com dois dólares por dia, ou menos. Em Portugal existem 2
milhões de pessoas com sete euros por dia que, no nosso meio, correspondem
praticamente ao mesmo, mas estas pessoas têm acesso á eletricidade, água,
alfabetização, cuidados de saúde, apoio social mínimo… Em muitos lugares da
Ásia, África, América, nada disto existe, somando-se, ainda, a privação de
muitos direitos, nomeadamente das mulheres, e a discriminação.
Não ficar de braços cruzados perante esta realidade,
acreditar que cada um dos nossos atos é importante para que ela mude, é o
caminho que nos aponta Bunker Roy.
Roy fundou, em 1972, o Centro de Investigação e Trabalho
Social, primeira pedra do Barefoot College. O programa foi ampliado até se
tornar o que é hoje, um dos maiores centros de pesquisa, inovação e educação no
trabalho com a pobreza.
O BC formou mais de 3 milhões de pessoas no mundo,
engenheiros, médicos, empreiteiros, arquitetos, professores, tecelões,
pedreiros, ferreiros, técnicos de comunicações, cozinheiros, operários. Todos
os graduados desta faculdade eram analfabetos, ou semianalfabetos, quase todos
eram mulheres oprimidas e idosas. Mulheres sem direitos ou afastadas do
controle das suas vidas são hoje líderes de projetos. E criaram sistemas de
energia solar onde não havia luz elétrica, construíram sistemas de rega, casas
e fundaram escolas onde ensinam outras mulheres. O BC criou um programa de
educação noturna para crianças (que não podem frequentar a escola diurna).
Estas crianças auto organizam-se segundo as regras democráticas e revelam os
bons resultados da transferência de responsabilidades tradicionalmente
atribuídas a adultos.
Sim, uma ideia pode mudar o mundo, o ser humano supera-se a
cada momento… Procuremos as soluções no nosso interior e escutemos as pessoas
que têm as soluções diante de nós. "Elas estão em todo o mundo."
Muitas das nossas escolhas não nos parecem verdadeiras escolhas, mas “deveres”,
algo a que não podemos escapar. Esta perspectiva faz-nos sentir um maior peso
nos deveres, obrigações, que se nos deparam (e não são poucos...). Porque se uma parte de nós age por dever, por sacrifício,
porque “tem de ser” e se sente constrangida ou culpabilizada, essa parte devora
toda a nossa energia e vitalidade acabando, mais cedo ou mais tarde, por se
vingar, manifestando-se através da ira, revolta, zanga…
Mas é possível mudar a perspectiva e, consequentemente, mudar
substancialmente a forma como vivemos os “deveres” do nosso quotidiano.
Sim, é possível fazer escolhas motivadas unicamente pelo
nosso desejo de contribuir para a vida e não por culpa, medo, vergonha, dever
ou obrigação. E isso muda radicalmente a qualidade dos nossos dias. Como nos
diz Marshall Rosenberg “quando temos
consciência do propósito enriquecedor para a vida que está por detrás de uma
ação até o trabalho mais duro contém um elemento de prazer”.
Substituir “Tenho de
fazer” por “Escolho fazer” é a
sua proposta para a mudança. Ei-la:
1.Escreva
num papel todas as coisas que diz a si mesmo que tem de fazer, qualquer actividade
que deteste, mas faz assim mesmo porque percebe que não tem escolha.
2.Depois
de completar a lista, reconheça claramente para si mesmo que está a fazer essas
coisas porque escolheu fazê-las, não porque tem de fazê-las. Coloque a palavra “Escolho”
à frente de cada item que listou.
3.Complete
a frase “Escolho… porque quero…”
A cada escolha que fizer, esteja
consciente da necessidade que atende.
Ao explorar a frase “Escolho…
porque quero…” podemos descobrir que há valores importantes por detrás
das escolhas que fazemos. Quando temos consciência do propósito enriquecedor
para a vida que está por trás da acção que fazemos, quando a energia que nos
motiva é a de tornar a vida melhor para nós e para os outros, então até o
trabalho mais aborrecido contém um elemento de prazer.
É natural que sintamos algumas dificuldades na realização
deste exercício. É difícil, muitas vezes, identificar as necessidades que
efetivamente estão por detrás de cada escolha. Mas elas estão lá e a cada uma correspondem
valores importantes (dinheiro, aprovação, evitar punições, evitar a culpa,
evitar a vergonha…). O que é mais importante para si? Um dos exemplos que
Marshall Rosenberg dá, ao fazer este exercício, é o de um item da sua lista:
Levar as crianças de carro à escola (que ele sentia como uma obrigação). Quando
examinou o motivo por detrás daquela tarefa apreciou os benefícios que os
filhos tinham em frequentar aquela escola mais longínqua do que a escola do
bairro que não estava em harmonia com os seus valores educacionais. Esta
consciencialização permitiu-lhe continuar a levar as crianças com uma energia
bem diferente.
Substituir uma linguagem que nega a possibilidade de escolha,
por uma em que tomamos consciência dos verdadeiros valores que estão por detrás
de cada escolha, é substituir a renúncia à vida em nós mesmos, substituir uma
mentalidade robô que nos separa da nossa própria existência, pela integração
plena na vida que há em nós, nos outros e em tudo o que nos rodeia.