Há
uns anos atrás, ao visualizar este vídeo, a primeira associação que fiz foi à
impaciência dos adultos perante os mais velhos. “Os impacientes não têm tempo para
amar; não têm tempo de viver!” A impaciência, no adulto, é fruto dela mesma,
porque a impaciência é fruto de imaturidade. Imaturidade, algo que não está
maduro, algo precipitado, algo feito antes de tempo. Perde-se o controle,
perde-se vida. Quanta vida perdida na nossa impaciência!
Ontem, ao visualizar, de novo, estas imagens, pensei, sobretudo, na
perda, nos adultos, de se encantarem com o pulsar daquilo que os rodeia, com o
pulsar de cada som, de cada cor, de cada aroma… Deixamos de ver aquilo que
temos diante dos olhos (partindo do princípio que já vimos) e que tanto nos
espantava enquanto crianças.
Talvez seja essa a magia do envelhecimento e o ensinamento que podemos oferecer aos mais jovens: recuperar o espanto perante a vida de cada momento; existir mais devagar, na paciência
do coração; viver e amar na eternidade de cada
instante.
O clown é o palhaço cénico, sutil na
sua apresentação, característica que o diferencia dos demais palhaços reconhecidos
por meio do nariz vermelho que funciona como uma máscara, com um significado que,
de certa forma, lhes oculta a face. A máscara do clown vem para mostrar,
revelar, expandir a face e, ao mesmo tempo, o corpo. O clown também se
distingue pelo seu modo diferenciado de comunicar, de andar, vestir e maquilhar.
Cada clown é único e com cada um podemos aprender muito sobre a comunicação, a aceitação
das nossas fragilidades, a expressão de quem realmente somos, a generosidade, a
emoção, o prazer, a autenticidade, a humanidade.
“Há só uma coisa que eu temo: Não ser digno dos meus
sofrimentos.”
Dostoiévski (citado por Viktor Frankl em O Homem em busca de Sentido)
“A vida significa, em última instância, assumir a
responsabilidade de encontrar a resposta adequada aos seus problemas e
ultrapassar os desafios que constantemente apresenta a cada indivíduo (…)
O que importa não é o sentido da vida, em geral, mas antes o
sentido específico da vida para uma pessoa num dado momento (…)
Numa palavra, cada pessoa é questionada pela vida; e à vida
cada um pode apenas responder sendo responsável.”
Viktor Frankl, O Homem
em Busca de um Sentido
O conceito de “optimismo trágico”, criado por Viktor Frankl,
remete-nos para a questão: Como é
possível dizer sim à vida, apesar de tudo?
Pode a vida reter o seu potencial de sentido apesar da dor,
da culpa, da morte?
A força da resposta a esta questão reside na própria vida de Viktor
Frankl: é no meio do sofrimento que ele, não somente descobre os seus próprios
recursos de sobrevivência e superação, como também a base teórica para o
desenvolvimento da “terapia do sentido da vida”.
Dizer sim à vida, apesar de tudo, subentende que a vida tem
potencialmente significado em qualquer circunstância, mesmo nas mais
miseráveis. Tal, pressupõe:
(1) Transformar o sofrimento em realização e aperfeiçoamento
humano.
(2) Retirar da culpa a oportunidade de nos mudarmos para
melhor.
(3) Retirar da
transitoriedade da vida um incentivo para levar a cabo ações responsáveis.
Como referimos aqui, Viktor Frankl apresenta-nos três vias
que nos conduzem ao sentido da vida:
(1) Criando um trabalho ou realizando um feito notável,
ao sentir-se responsável por terminar um trabalho que depende
fundamentalmente dos seus conhecimentos ou da sua acção.
(2) Experimentando um valor, algo novo, ou
estabelecendo um novo relacionamento pessoal. Este é também o caso de uma
pessoa que está consciente da responsabilidade que tem em relação a alguém que
a ama e espera por ela.
(3) Adoptando uma atitude em relação a um sofrimento
inevitável, com a consciência de que a vida ainda espera muito da nossa
contribuição para com os demais.
A mais importante é a 3ª via: mesmo a vítima indefesa de uma
situação irremediável, colocada ante um destino que não pode mudar, pode
erguer-se acima de si mesma, pode crescer para além de si mesma e, desse modo,
mudar quem é. Pode transformar uma tragédia pessoal numa vitória.
Viktor Frankl não só sobreviveu a horrores inimagináveis,
como também soube dar “sentido” ao seu sofrimento, transformando-o numa vida
plena sentido e ajudando-nos a crescer em consciência e responsabilidade. O seu
livro O Homem em Busca de um Sentidoescrito
em 1946, continua a ser um dos mais influentes de sempre. A sua mensagem
perdura e dá-nos força para enfrentar as adversidades e permanecer optimista,
apesar de tudo.
Nota: Relembramos, ainda, este texto maravilhoso de Anselmo Borges.
"O nosso medo mais profundo é saber que somos mais poderosos do que qualquer expectativa.
Todos podemos brilhar, tal como o fazem as crianças.
E quando deixamos que a nossa própria luz brilhe, damos inconscientemente aos outros a oportunidade de fazerem o mesmo.
Conforme nos vamos libertando dos nossos medos a nossa presença liberta automaticamente os outros."
Marienne Williamson
“Não precisa de se perguntar qual é o seu propósito.
Encontrá-lo-á sempre ajudando os outros (…) Tocar a vida de alguém vale mais do
que qualquer fortuna (…) Não importa a que se dedique (…) o que importa é que dirija
a sua atenção para como servir os outros (…) A vida converte-se nestas três
virtudes: Como posso ajudar, ser amável, sentir veneração.”
Final do
filme “Ambition to meaning: Finding Your
Life´s Purpose”
Vivemos um período de mudanças exponenciais a todos os
níveis. Um tempo em que, se quisermos avançar, temos de fazer como a águia:
Passar por um processo de transformação profunda. As mudanças que enfrentamos
não têm precedentes na história da humanidade e para lidar com elas precisamos,
tal como a águia que se livra do bico, das unhas e das penas, de nos libertar
de costumes, ideias, tradições, medos…
O medo… Uma das grandes amarras que domina as nossas vidas
nestes tempos de incerteza: Medo do que nos espera no futuro, medo da mudança,
medo da perda…
O medo, como a dor, é um reflexo natural indispensável para a
sobrevivência, pois permite detetar, de antemão, circunstâncias perigosas. No
entanto, na nossa espécie, o papel do medo evoluiu e expandiu-se para lá da sua
missão de anteciparmos perigos tangíveis. Angustiamo-nos não só pelos nossos
problemas, como pelos dos nossos familiares, amigos e desconhecidos,
antecipamos situações, danos imaginários, ameaças futuras. Quanto sofrimento
humano causado por males que nunca ocorreram!
O medo (e a ansiedade que se lhe associa) talvez seja um dos
efeitos mais daninhos da época que vivemos. Não obstante, surge-nos, também, um
efeito paralelo: O aumento da solidariedade, da consciência social em amplos
setores da população.
Consciência social é a grande luz do nosso caminho futuro.
Ignoramos como será o mundo dentro de cinco ou dez anos, sabemos que vai ser muito
diferente, mas que os valores e princípios que alicerçam o nosso pleno viver são
os mesmos. E, como diz Sergio Fernandez, “só se pode viver com base no amor ou
no medo”. "Cada decisão que tomamos, cada atividade que desenvolvemos, cada pequeno gesto... fazemo-los movidos pelo amor ou pelo medo." O contrário do amor é, de facto, o medo. Viver sem medos é uma
decisão que nos transporta para a luz que nos resgatará destes tempos difíceis.