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quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

BOAS FESTAS


"O Natal não é ornamento: é fermento
Dentro de nós recria, amplia, expande

O Natal não se confunde com o tráfico sonolento dos símbolos
nem se deixa aprisionar ao consumismo sonoro de ocasião
A simplicidade que nos propõe
não é o simplismo ágil das frases-feitas
Os gestos que melhor o desenham
não são os da coreografia previsível das convenções

O Natal não é ornamento: é movimento
Teremos sempre de caminhar para o encontrar!
Entre a noite e o dia
Entre a tarefa e o dom
Entre o nosso conhecimento e o nosso desejo
Entre a palavra e o silêncio que buscamos
Uma estrela nos guiará"
 José Tolentino Mendonça

 imagem tirada daqui (snpcultura)

Vivemos o tempo do Advento, um tempo de fazer silêncio em nós, um tempo de dar tempo àquilo que, por vezes, anda esquecido: Contemplar, acender uma vela, dizer o quanto gostamos dos outros, repartir a vida. Um tempo, como nos diz José Tolentino Mendonça, “de abrir janelas na noite do sofrimento, da solidão, das dificuldades e sentir-se prometido às estrelas, não ao escuro”. Um tempo de se perguntar: "há quantos anos, há quantos longos meses desisti de renascer?"

Neste Advento que vivemos, e nos convida a uma alegre vigilância, preparemo-nos para acolher o Natal numa grande festa plena de sentido. Sim, porque as festas são fundamentais para quem quer viver a vida num enredo comum, em permanente renovação e partilha. São ainda mais importantes para quem sente as dificuldades da vida, para quem tem falta de esperança, de alegria, de acompanhamento. As festas contrastam com o dia-a-dia, tantas vezes cinzento, permanecendo marcos no tempo que nos reanimam e revigoram.

E, sim, troquemos prendas também: Faz todo o sentido o gesto de trocar prendas que nos liguem às pessoas que amamos, ou de quem é esperado que sejamos amigos. “O gesto de descobrir o que será a prenda, o que fazer ou comprar, implica que me interrogue sobre mim, sobre o outro e seus gostos e necessidades. É um desafio ao encontro, à compreensão, à proximidade.” Mas, sobretudo, vivamos este Natal como o fermento da mudança que almejamos, da coragem de cada renascer, do verdadeiro Encontro.

A todos os que por aqui passam desejamos uma imensa festa plena de sentido que vos recrie, amplie e expanda. Desejamos, enfim, que haja Natal em cada dia das vossas vidas.
BOAS FESTAS!

 imagem da Campanha "Um aluno, um pacote de leite, uma mensagem de Natal" dinamizada pelo nosso Projecto.

 

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Da cozinha para a mesa em companhia



“A cozinha representa a construção da autonomia do homem face à natureza, a sua capacidade de se diferenciar e de ser. (…)
A cozinha é, por excelência, o lugar da transformação. É o lugar da instabilidade, da procura, da incerteza, das misturas inesperadas, das soluções imprevistas, das receitas adaptadas. A cozinha é o lugar da criatividade e da recomposição. É a metáfora da própria existência humana, pois distingue o homem, precisamente, esta capacidade de viver na transformação, numa mobilidade que não é só geográfica.”
José Tolentino Mendonça, Nenhum Caminho será Longo

 imagem tirada daqui
Podemos dizer que a história do homem se confunde com a história da alimentação. O domínio do fogo permitiu a passagem do “cru ao cozido” interpretada por Lévi-Strauss como o processo de passagem do homem da condição biológica para a social. Ou seja, a cozinha vai diferenciar o comportamento humano não só na sua vertente biológica, mas na sua vertente social pelo facto de fomentar as interações sociais à roda de uma mesa: Comer e beber em companhia reforçam relações de proximidade. À mesa temos um espaço/tempo em que, como nos diz José Tolentino Mendonça, “o contar se realiza ao contar-se”. Um espaço/tempo de convivialidade, de encontro, de reciprocidade. Ao partilhar a comida compartilhamos uma experiência dos sentidos. E, sobretudo, alimentamo-nos mutuamente. Porque se a cozinha é o lugar privilegiado da transformação é, também, o lugar privilegiado da dádiva. Dádiva que partilhamos à mesa numa plena reciprocidade de corpo e alma (a observação científica mostra que as refeições em comum são, em geral, consumidas mais lentamente e a quantidade total de calorias ingeridas é inferior relativamente às ingeridas em refeições solitárias, como se a convivialidade tivesse já saciado o nosso apetite e alimentado as nossas células).
Nestes tempos que habitamos e, em particular, na época festiva que se aproxima, permitamo-nos viver plenamente esta comunhão que só as refeições em companhia nos proporcionam. Permitamo-nos, também, uma reflexão sobre a capacidade do homem viver na transformação, sobre a capacidade da descoberta das soluções imprevistas, da criatividade e da recomposição a que a cozinha nos remete.


sábado, 24 de novembro de 2012

A importância do quotidiano


“Que dádiva de vida fui capaz de oferecer hoje?
Que palavra, que olhar, que sorriso, que gesto, que disponibilidade, que conforto, ofereci, recebi, revelei?
...........
Quem, no dia-a-dia, aceita o desafio de dar, àquele que encontra, o sentimento de enriquecer a sua vida, de embelezar o seu olhar, de ouvir a sua palavra, de se sentir mais amável e mais presente? Quem ousa criar o projeto de se aceitar melhor, de ser capaz de se fazer amado e amar a todo o momento, tornando-se, assim, um semeador de vida?
Jacques Salomé



A nossa tendência, quando nos perguntam sobre a nossa vida, é a de nos centrarmos em datas que representam grandes acontecimentos, algo extraordinário. E no entanto, se pensarmos bem, os grandes acontecimentos contam-se pelos dedos. O que preenche verdadeiramente a nossa vida não são os grandes acontecimentos, mas os pequenos gestos, as dádivas de cada dia. É o quotidiano que nos revela e transporta para algo maior. Saibamos acolher, em consciência, os pequenos acontecimentos, aquilo que nos embeleza o olhar e a alma, a cada momento. E no final de cada dia perguntemo-nos:
“Sorri? Dei? Ajudei? Amei? Admirei? Ao menos uma vez? Ao menos um pouco?”