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sábado, 3 de novembro de 2012

Aprender a viver, aprender a morrer



“Após anos e anos de assistência a pessoas que vivem os seus últimos momentos, não sei muito mais sobre a morte em si mesma, mas a minha confiança na vida não tem senão aumentado. Vivo, sem dúvida, mais intensamente, com uma consciência mais aguda, aquilo que me é dado viver, alegrias e tristezas, mas também todas essas pequenas coisas quotidianas, que são óbvias, tal como o simples facto de andar ou respirar.
Talvez me tenha tornado mais atenta aos que me rodeiam, consciente de que não os terei para sempre a meu lado, desejosa de os descobrir e de contribuir, tanto quanto puder, para que eles venham a ser aquilo para que são chamados. (…)
(…) e muitos moribundos, no instante de deixarem a vida, nos têm lançado esta mensagem pungente: Não passem ao largo da vida, não passem ao largo do amor.”
Marie de Hennezel, La mort intime

"Qualquer que seja a duração de vossa vida, ela é completa. A sua utilidade não reside na duração e sim no emprego que lhe dais. Há quem viveu muito e não viveu. Meditai sobre isso enquanto o podeis fazer, pois depende de vós, e não do número de anos, terdes vivido bastante."
Michel de Montaigne, Ensaios


 Sabemos que todos morreremos um dia, mas escondemos a morte, fugimos… Angustia-nos pensar nela. É, talvez, dos únicos tabus da nossa sociedade. E, no entanto, a morte é o momento culminante da nossa vida, a sua coroação, aquele que lhe mostra o sentido e valor.
Aqueles que têm o privilégio de acompanhar alguém, nos seus últimos instantes de vida, partilham uma intimidade cujo valor é incomensurável. Aquele que vai morrer tentará expressar, àqueles que o acompanham, toda a sua essência. Através de um gesto, uma palavra, às vezes, somente um olhar, tentará falar daquilo que conta verdadeiramente e não soube dizer (ver 5 arrependimentos antes de morrer).
Que grande ensinamento nos dá aquele que vai morrer: Ensina-nos a viver!
Em vez de negar a morte há que integrá-la na vida e, na consciência de seres mortais, podemos valorizá-la, respeitá-la na imensidão daquilo que nos oferece.
Precisamos aprender a viver e aprender a morrer… Para essa aprendizagem propomos dois exercícios: O primeiro da autoria de Stephen Covey e o segundo de Vasco Gaspar.

                                                        imagem tirada da internet

 “Se eu estivesse morto…”

- Pense em três pessoas dentre aquelas que conhece melhor: cônjuge, amigo, colega…
- Numa folha resuma numa frase aquilo que cada um diria de si (três frases, portanto, no total).
- Noutra folha escreva, em seguida, aquilo que gostaria de ouvir sobre si. Para ajudar pode categorizar: plano relacional, familiar, profissional, espiritual…
- Compare as duas listas.
- Realce os aspectos que considera mais importantes consagrando-lhes prioridade no futuro, tomando-os como objetivos concretos.



-“Vivi ao máximo o meu potencial?”
-“Pus “cá para fora” quem eu realmente sou?”
-“Inspirei as pessoas que me rodeiam?”
-“Fiz a diferença na vida de alguém?”
-“Construí algo que mereça ser lembrado?”
-“Deixei o mundo melhor do que quando o encontrei?”


Nota: Ver ainda "Ce qui est important"



Muito obrigada, Emília!


domingo, 21 de outubro de 2012

Que prioridades vivo?

“O que comanda a vida é o afecto, não é o pensar.
Santo Agostinho dizia que é o querer que nos leva e estimula o intelecto e a compreensão; ao contrário do que muitas vezes pensamos. “Eu penso e depois isso passa para a realidade”, dizemos nós. Mas é mentira! Aquilo que eu penso não passa tão facilmente para a realidade, mas é aquilo que eu quero – mesmo – que determina as minhas acções. Só que, às vezes, no fundo, não queremos – ou “ainda não” queremos.
E isto é uma questão muito clara, para responder com franqueza: Que prioridades vivo? As prioridades da razão ou do coração?” 
Vasco Pinto Magalhães, sj


   
 “Tempo é uma questão de preferência. Tempo, quando você quer, arranja. Só que eu estou com mais tempo para outras coisas. Ou seja, no fundo, eu estou preferindo fazer outras coisas (…)
Isso me faz lembrar aquela história em que pediram para uma pessoa escrever uma coisa e lhe disseram que era só para Outubro. Aí a pessoa respondeu que se fosse para Outubro não tinha tempo. Mas se fosse para já, fazia, tinha tempo.” 
Jô Soares
 
O tempo não será, totalmente, uma questão de preferência, pois vivemos, de facto, muito condicionados por tensões profissionais, solicitações que nos chegam de toda a parte, inúmeras pressões que não nos permitem viver o tempo com Tempo. Mas há que reagir e para tal, como nos diz Vasco Pinto Magalhães, é necessário, em primeiro lugar, dar-se conta da mudança profunda dos nossos modelos culturais, do que está subjacente a esta mudança que nos desestrutura. Em seguida, há que assumir, purificar e desenvolver as prioridades do coração; aprender a liberdade no diálogo com os outros; saber dizer não e saber dizer sim. Sem esta sabedoria não há equilíbrio. O equilíbrio que supõe uma escolha exigente,  discernimento e força. Supõe, assim, não vivermos em "equilibrismo" que é querermos compatibilizar tudo, no fundo, estar em todo o lado e não estar em lado nenhum. Há que escolher estar aqui e agora. E depois, há que fazer e responder à pergunta certa: “O que me é realmente pedido que eu faça?”
Sim, porque a vida nos interpela, nos chama a cada momento e fazemos, cada vez menos, a pergunta certa do que nos é pedido e do que está nas nossas mãos, negando os nossos limites. Há que aceitá-los e lidar com esta profunda mudança cultural que nos condiciona e desgasta implica, para além da aceitação, uma abertura e diálogo com a realidade. Só podemos avançar se descansarmos e o descanso tem como ponto de partida um diálogo com as coisas que nos acontecem, viver os problemas em diálogo e não entrar em conflito com a realidade. E, nesse diálogo constante com as situações, com os problemas, captar deles o que interessa e deitar fora o que não interessa. Deveríamos ter, tal como nos computadores, aquele mecanismo de delete, de deitar fora aquilo que não interessa. Deveríamos ter um enorme “caixote do lixo” que nos permitisse um imenso espaço livre para o que realmente importa: O amor e o sentido. 
Fonte bibliográfica:  Vasco Pinto Magalhães, Só Avança Quem Descansa