“Cada pessoa que passa na nossa vida passa sozinha, porque cada uma é única e nenhuma substitui a outra.
Cada pessoa que passa pela nossa vida não nos deixa sós, porque deixa um pouco de si e leva um pouquinho de nós.
Essa é a mais bela responsabilidade da vida e a prova de que não nos encontramos por acaso.”
Charles Chaplin
A nossa vida é feita de encontros, alguns absolutamente transformadores. Nem sempre, porém, nos damos conta da sua importância no momento em que ocorrem. Só mais tarde revelam, na nossa consciência, a sua profunda marca: Uma presença verdadeira num determinado momento da nossa vida, um gesto simples na hora certa, o silêncio partilhado num momento difícil, um sorriso a romper as nuvens e fazer clarear o sol no nosso coração…
Todos, sem excepção, vamos sendo marcados por pessoas que ficam gravadas na nossa memória.
O caminho que nos leva aos outros é construído por nós: Somos os responsáveis pela frequência, intensidade e qualidade dos nossos encontros. Moldados por uns e “acordados” por outros, a dimensão dos encontros vai aumentando à medida do progressivo contacto connosco próprios, da nossa abertura interior para o que nos rodeia. Um caminho de maturidade, experiência, aprendizagem, consciência, compreensão e liberdade.
O conflito é de tal forma corrosivo que nos pode tornar absolutamente incapazes de gerir as nossas vidas, nos seus aspectos mais básicos. No entanto, deve ser difícil encontrar na Terra ser vivo mais atreito à geração de conflitos do que o Homem. Não passa um dia (nalgumas pessoas, horas), sem que seja engendrado um conflito com alguém ou connosco e mal acaba um, há logo outro a começar. E cá estamos no mais destrutivo ciclo vicioso do nosso dia-a-dia.
O conflito divide-se em dois aspectos: o interior e o exterior. Geralmente, senão sempre, o conflito exterior decorre do interior e na nossa cultura o conflito está de tal forma enraizado na nossa maneira de pensar e agir, que quase partimos do princípio que parte da nossa própria essência. Porém o conflito decorre do nosso contexto cultural e civilizacional, tendo a sua expressão mais violenta na guerra e na forma como muitos entendem a guerra como um mal necessário.
Não devemos confundir conflito com confronto. Recorrendo aos dicionários para saber exactamente do que estamos a falar: CONFRONTO significa comparar, pôr em paralelo com, acarear (ACAREAR é a acção de pôr questões em presença de várias pessoas para se ajustarem posições, em sentido figurado, significa atrair afagos, tornar algo ou alguém caro e querido); CONFLITO significa embate, choque, luta, guerra, desordem…
Quando uma criança nasce nunca é conflituosa, apesar de estar, permanentemente, em confronto: Começa por confrontar alimentos entre si, comportamentos dos outros para com ela, sensações de bem-estar e mal-estar físico e por aí adiante. Nesta confrontação toma partido por algumas dessas experiências em detrimento de outras. Apurando o seu sentido crítico vai aprendendo a escolher, vai construindo a sua “enciclopédia” de vida. Quando é muito pequenina pode ser, de facto, muito espalhafatosa nas suas demonstrações e as suas birras são, muitas vezes, confundidas com conflito quando, no fundo, se trata de um confronto, de uma aprendizagem, de uma descoberta. Todos os que estão envolvidos afectivamente com a criança devem entrar neste processo de aprendizagem e CONFRONTAR as suas aprendizagens com as da criança. Todos têm de saber discernir que nem tudo se pode fazer, mas que não é à força que se resove a questão. Não é pela imposição que o assunto fica resolvido: Há que ACAREAR, ou seja, saber gerar um consenso através da comunicação entre as partes que só o afecto permite.
Quando se tenta impor pela força, imediatamente gera-se a reação de resposta à imposição e à força e, se esse é o padrão, a resposta terá igual sinal. À força responde-se com força e deitamos à terra a semente do conflito iniciando esse ciclo vicioso de permanente beligerância. Uma situação que predomina na nossa sociedade e é algo que nos marca o comportamento e as emoções para toda a vida.
A esmagadora maioria das expressões de conflitos são efeito de conflitos que experimentamos internamente: É como se a nossa mente se repartisse em dezenas de compartimentos em que cada um alberga uma emoção que entra em conflito com a outra. Até um simples pensamento parece ser um potencial gerador de conflitos manifestando-se nas situações mais insignificantes como pensar em ir à praia (vou, não vou… da outra vez fui e fiquei escaldada, vou sozinha ou convido X, ou Y… se for à hora W e apanhar fila… se a praia está cheia…) que se pode tornar num verdadeiro inferno mental. Um inferno que tem na sua raiz as emoções conflituosas.
Emoções que não controlamos, mas que nos controlam e que entram em choque umas com as outras, até nos deixarem literalmente incapazes de lidar com o nosso quotidiano.
Toda a nossa vida está condicionada por este padrão de comportamento e, se observarmos com atenção, aquilo que realmente nos atormenta não são os problemas, mas a nossa incapacidade de nos confrontarmos com eles objectivamente e resolvê-los: Entramos instantaneamente em conflito, caindo de cabeça numa espiral de emoções descontroladas.
Há que deixar de dar espaço a esta avalancha de conflitos internos, onde nos temos deixado levar desde crianças.
O grande trabalho será o de reconhecermos que o conflito emocional não existe, não é uma coisa que tenhamos dentro do cérebro, mas o resultado de um ciclo educacional e cultural que só nós podemos fazer cessar. Ninguém o pode fazer por nós. Tomar consciência deste incomensurável condicionamento, de que sofremos com ele e, sem auto recriminações (ou culpa, outro mecanismo poderosíssimo de controle psicológico), com os olhos do coração, a pouco e pouco, ultrapassá-lo.
Fonte: Frederico Mira George, O Princípio do Caminho
“Desde os tempos de criança qual foi o maior gesto de que fui capaz? Experimentem perguntar isto a vocês mesmos, sem testemunhas, e verão o sarilho em que se metem. Lembro-me sempre da história daquele santo que pregava no deserto e acudia aos pobres e leprosos, mas não conseguia evitar sentir-se vaidoso da sua índole, o que, em certa medida, lhe anulava o mérito. (…)
Esperem, talvez nem sempre haja batota: Podemos ser absolutamente gratuitos nos nossos rasgos e só mais tarde tomar consciência de que houve ali uma intenção.
O bem que fazemos é muitas vezes suspeito, mas o que nos salva e redime é esquecermo-nos dos gestos grandes que fazemos.”
Rita Ferro
Nota: Este texto surge na sequência de uma conversa a respeito da gratuidade do amor, da dificuldade imensa de nos darmos incondicionalmente e sentir gratidão na dádiva em si e por si, sem esperar outra retribuição. Sentir o “EU – TU” transformar-se de imediato no NÓS, sentir esse “maior - do - que - eu - que - me - habita”. Sentir a alegria que existe unicamente no facto de dar e agradecer interiormente o beneficiário da nossa generosidade, pois foi ele que permitiu, sem o saber, fazer-nos entrar em contacto com a melhor parte de nós: Aquela que tem a consciência da infinita riqueza da troca e da partilha.
Rubinstein explicava, numa entrevista, que, à medida que começou a envelhecer, passou a:
1. Tocar poucas peças – Selecção.
2. Praticar as mesmas peças mais vezes - Optimização.
3. Usar uma espécie de impression management para compensar a perda de velocidade mecânica, introduzindo notas lentas antes de segmentos rápidos, fazendo assim com que estes segmentos parecessem ainda mais rápidos – Compensação.
Esta orquestração da selecção, optimização e compensação não deverá ser exclusiva da velhice e sim, fazer parte integrante do nosso processo de desenvolvimento ao longo do ciclo da nossa vida.
Arrumando revistas e papéis deparo-me com dois artigos de David Servan-Schreiber cujo aspecto essencial comum é o de mostrar o poder do afecto, esse poder que não cura as feridas físicas, mas as da alma, da solidão, do medo e, até mesmo, da dor.
A partir de experiências realizadas na Universidade de Wisconsin (EUA), Richard Davidson avaliou (através de ressonâncias magnéticas) o medo e a dor em mulheres submetidas a pequenos choques eléctricos. Se fossem deixadas sós durante a experiência tinham medo e sofriam fisicamente. Se alguém do laboratório que nunca tivessem visto antes lhes desse a mão, sentiam menos ansiedade, mas a dor mantinha-se. No entanto, se fosse o seu marido a segurar-lhes a mão, tudo se acalmava no seu cérebro. Existe algo de muito forte no contacto físico, algo tão forte como um medicamento que possa proporcionar a acalmia da dor e do medo. E quanto mais forte for a relação, maior a eficácia do “medicamento”.
Este amor que temos àqueles que nos são próximos é, por vezes, posto a duras provas. Mas é, justamente, nessas alturas que ele é capaz de mostrar o seu poder transformador. David Servan-Schreiber conta-nos a história de uma mulher cujo filho depois de alguns episódios psicóticos que tinham tido como desenlace um internamento que só o levara à cólera contra a mãe e ao abandono da casa materna. Esta mulher ficara sem qualquer notícia do filho a não ser de alguns amigos de infância que ele, por vezes, contactava. Todas as manhãs acordava angustiada: “Qual seria o futuro do seu filho?” Ao fim de seis meses de angústia conseguiu saber onde ele estava e dizer-lhe que o esperaria, numa localidade próxima, no dia do seu aniversário. O dia chegou e ela esperou várias horas, tentando descortinar no meio de todas as silhuetas que se lhe assemelhavam, uma que pudesse ser a dele. Nada. Até ao momento em que, ao voltar-se, o viu aparecer no seu campo de visão. Muito magro e sujo, passa por ela, de olhos baixos, dizendo como se fosse para ele próprio: “Porque é que estás aqui? Detesto-te, nunca mais te quero ver.” Profundamente abalada a mãe só teve tempo de lhe gritar, antes de ele desaparecer, “Bom aniversário!”, pensando que nunca mais o veria.
Mas… Ele voltou e ao fim de quatro anos acabou por aceitar o tratamento de que necessitava e lhe possibilitou a reconstrução da sua vida. Neste período foram muitas as conversas que teve com a sua mãe e delas ficam estas palavras: “Quando o meu espírito estava agitado, a única coisa que tinha de sólido na minha vida era saber que fosse o que fosse que acontecesse, tu estarias lá para mim.” E ela tinha estado, mesmo na mais profunda impotência, tinha dado o sinal do amor que nos resta, por vezes, dar. Aquele que diz: Estou aqui. Estou contigo, sempre.