Desde 1997, ano a ano, o Trend Observer detecta e hierarquiza as tendências do nosso Mundo. O estudo realizado em 2011 no perímetro geográfico França, Grã-bretanha, Suécia, Itália, EUA e Japão, aponta a “rehumanização” do mundo como a grande aspiração do ano de 2012. Uma demanda de experiências concretas, contacto físico; uma demanda de sentido, coerência; uma demanda de estabilidade, segurança; uma demanda de convivialidade, de confiança.
Reduzir a aceleração das nossas vidas, adoptar ritmos mais humanos, conectarmo-nos ao que realmente importa, encontrarmo-nos, enfim, num mundo mais humano são os grandes desejos da nossa época. Desejos que nos tranquilizam quanto ao futuro que construiremos para os realizar.
Se tudo correr bem, todos seremos, um dia, “pessoas idosas”…
A nossa grande responsabilidade para as gerações que nos sucedem é a de nos prepararmos para envelhecer bem. Não só do ponto de vista psíquico, mas também no combate a tendências preconceituosas e enraizadas, na criação de estruturas sociais acolhedoras e na promoção de uma outra perspectiva do envelhecimento. Envelhecer da forma mais serena e inteligente possível. Se pudermos transmitir uma arte de envelhecer feliz, em leveza, ofereceremos algo, de facto, às novas gerações. Devemos também falar frontalmente e não silenciarmos os nossos medos para, em conjunto, encontrar as forças que permitam ultrapassá-los: Dialogar, expandir os nossos laços de Amor. Porque, “quando há Amor, há soluções.”
"Da mesma forma que um dia bem vivido traz uma noite feliz, uma vida bem vivida traz uma morte feliz. "
Leonardo da Vinci
Envelhecer bem: Um processo que se aprende e prepara desde a mais tenra idade. Manter a curiosidade, viver intensamente cada momento que passa, enriquecer interesses, cultivar o bom-humor, fazer uma alimentação equilibrada, treinar a memória, investir nas relações de amizade, planear, estabelecer objectivos... São, justamente, estes últimos factores que possibilitam grande parte da dimensão positiva do envelhecimento.
O grande sentido para a nossa existência adquire-se, fundamentalmente, através dos laços fortes que vamos conseguindo estabelecer ao longo da nossa vida e dos projectos/objectivos a que nos propomos: Moai e Ikigai são as bases de sustentação de uma vida plena de sentido e de uma velhice bem sucedida.
"À medida que se envelhece, vão morrendo os neurónios da ansiedade. A velhice traz liberdade".
Leonard Cohen
Envelhecer bem significa agarrar firmemente todas as oportunidades da idade: Um apuramento da inteligência emocional e sabedoria, uma “autoplasticidade adaptativa” (que conduz a uma selecção, optimização e compensação como estratégias comportamentais), uma maior segurança em nós mesmos, uma menor impulsividade e influência da ansiedade, uma melhor aceitação das contrariedades, uma capacidade selectiva na retenção das recordações que estão ligadas a experiências positivas, em detrimento das negativas, reveladora de uma imensa sabedoria emocional.
E depois… a sensação de finitude impede-nos de perder tempo. Este vale agora mais e reclama contra o desperdício.
Esta consciência permite-nos acreditar no grande valor que os idosos representarão nas sociedades do futuro. Como diz Fernando Dacosta “viver-se-á mais devagar, nelas, para se existir mais profundamente, viver-se-á mais despojado para se ser mais equitativo. O avanço que os idosos estão a conseguir é um legado, para quem o souber ver, de acrescentamento, de esperança.”
“Fora de Portugal olhava numa estação televisiva americana a entrevista feita a uma glória da literatura anglo – saxónica, então com 86 anos.
A jovem jornalista de microfone agressivo em punho, disparava perguntas sobre perguntas à Senhora, elegantemente vestida, com um belo cabelo louro-prateado, sóbria de jóias nas mãos patrícias, sentada com distinção natural, no jardim de uma daquelas mansões do período colonial que costumava ver nos filmes de época de Hollywood. Com paciência e até alguma complacência, foi respondendo à revoada de questões sobre as suas obras, muitas delas já adaptadas a filmes, sobre prémios e outras distinções recebidas (…)
Até que a irrequieta jornalista disparou a pergunta fatal que em português seria, mais ou menos, assim: Nesta sua idade avançada, o que é que a faz correr e amar a vida (que, subentendia-se, vai terminar em breve)?
A Senhora levantou-se, quase sem dificuldade, deu uns passos no jardim, para indicar que a entrevista estava terminada, voltou-se com uma expressão facial de irónica comiseração, disse apenas: Curiosity.”
Daniel Serrão
Não se espera, em geral, que os idosos, com toda a sua vivência, ainda revelem curiosidade. A curiosidade é a chama que ilumina a intensidade de cada momento vivido e a capacidade de nos espantarmos incessantemente com o pulsar de cada novidade pode existir em qualquer idade, mas na velhice torna-se um legado profundamente inspirador.
No final de 2010 sugerimos aqui uma mudança para 2011. Para 2012 relembramos esta proposta e acrescentamos a de Matt Cutts: Arriscar algo novo que sempre desejamos fazer durante trinta dias. Vamos experimentar?
A situação demográfica actual coloca grandes desafios à Europa e Portugal: A Europa é a região mais envelhecida do mundo e Portugal um dos países mais envelhecidos da Europa. Segundo o Índice de Envelhecimento das Nações Unidas (representa o nº de pessoas com mais de 60 anos por cada 100 pessoas entre os 0-14 anos) prevê-se que em 2050 as pessoas com mais de 60 anos sejam o dobro das crianças ou jovens entre os 0-14 anos.
E no entanto… Vivemos numa época que privilegia o “novo”, a energia e vitalidade da juventude acima de tudo. Uma época em que interiorizamos, desde muito cedo, estereótipos negativos associados ao envelhecimento. O preconceito contra as pessoas idosas é bem ilustrado na polémica instalada antes do lançamento do filme UP. Os investidores questionavam seriamente o êxito do filme e os produtos de marketing a ele associados, tendo havido mesmo uma corrida à venda das acções da Disney neste período. Os fabricantes de brinquedos não acreditavam que as crianças estivessem interessadas em brincar com um idoso de 78 anos…
Quando o filme foi lançado todos os receios se revelaram infundados. O êxito de bilheteira do UP é, portanto, um bom indicador de que as nossas sociedades estão abertas à mudança.
O Ano Europeu do Envelhecimento Activo representa um marco na aposta em políticas que promovam um envelhecimento mais saudável e produtivo. No entanto, este envelhecimento não deverá surgir como uma imposição, mas como uma opção, ou seja, as pessoas idosas só deverão desempenhar determinados papéis se assim o desejarem.
O esforço da U. E. é, sem dúvida, louvável, mas a grande mudança ideológica que se nos impõe é muito mais abrangente e passa por uma estratégia activa em termos educacionais, pela promoção de acções intergeracionais, pela consciencialização da nossa responsabilidade no combate a certas tendências enraizadas e na promoção de uma sociedade mais aberta e inclusiva.
Um exemplo na integração de pessoas idosas é o Japão (e reparem uma sociedade altamente industrializada e tecnologicamente avançada): Em 1989 foi criado o Gold Plan que visava desenvolver serviços e programas que garantissem a segurança e dignidade dos idosos. Além de apostar no desenvolvimento de respostas ao nível social e de saúde inclui também investimento elevado na investigação e na pesquisa da ciência do envelhecimento. Na agenda política dos programas de envelhecimento japoneses o objectivo que surge como fulcral é o da promoção do bem-estar e realização das pessoas idosas - enriquecer o ikigai, ou seja, o sentido e propósito de vida.
Talvez devamos ter estes programas como referência porque a nossa grande mudança deverá ter como alicerce a valorização dos mais velhos nas suas necessidades e aspirações.
Em vez de encararmos o envelhecimento como um problema deveremos perspectivar todos os aspectos positivos que se anunciam, entre eles a oportunidade única e imensa de vivenciarmos a partilha de experiências entre as diferentes gerações que se vão encontrar pela primeira vez na História.
Fonte: Discriminação da Terceira Idade, Sibila Marques