O cheiro da relva molhada. Correr por entre árvores, num dia frio de muito sol. Lembrar os minúsculos gestos de carinho quotidiano dos amigos que trazemos dentro da voz, mesmo que não os possamos ver. Esquecer a agenda e inventar desculpas para ficar uma tarde inteira a ler à beira-rio. Mandar às urtigas as expectativas alheias. Gozar o luxo de perder dinheiro para ganhar tempo. Receber o abraço comprido de uma criança. Pensar que mesmo que nos enganemos não é grave. Pensar que nada é verdadeiramente grave, porque haverá sempre o sol e as estrelas e as árvores onde os pássaros cantam no meio da cidade e o cheiro a terra molhada.”
Inês Pedrosa
É a consciência do instante que transforma os momentos de bem-estar numa reserva de felicidade a que podemos recorrer quando nos falta a fé ou a esperança.
“Você tem de possuir os seus dias e tratá-los pelos nomes próprios
A cada um deles, a todos eles,
Caso contrário o ano passa
E nenhum deles lhe pertence.”
Herber Gardner
Neste domingo deixamo-vos três sugestões para viver cada dia com a consciência do coração e entrar mais em sintonia com o que é verdadeiramente importante.
1º) Reservar os primeiros minutos da manhã para criar a sua própria página do dia: Os seus “títulos do coração”- escutá-lo e falar com ele. “O que é mais importante na minha vida agora? Onde pretendes que eu vá? Quem necessita de toda a minha energia, tempo e atenção? O que pretendes que eu diga e a quem?”
2º) Lembre-se de, sempre que possa, conectar-se com a natureza: Respirar profundamente, entrar em sintonia com o silêncio que está para além do espaço e do tempo. Parar. Regressar ao ritmo original. Porque, com nos diz Lao Tsé, “a natureza não tem pressa, todavia tudo se cumpre.”
3º) Finalizar o dia com um exercício de consciencialização: Compilar uma lista dos momentos (experiências, relacionamentos, lugares, pessoas, livros, músicas, filmes, acontecimentos…) pelos quais se sente agradecido. Note-se que este exercício só funciona se for praticado. Na compilação deve ser incluída, em cada entrada, um “quê” e um “porquê” (igualmente importantes porque o objectivo não é apenas criar uma lista, mas sim reconhecer o que aprecia e valoriza na vida).
"Devo agradecer aos deuses terem-me dado bons antepassados, um bom pai, uma boa mãe, uma boa irmã, bons preceptores, bons amigos, tudo o que se pode desejar de bom."
Marco Aurélio
A surpresa de uma nova dádiva aguarda-nos a cada passo do nosso caminho dando-nos sempre a oportunidade de ser felizes.
Quando sentimos gratidão reconhecemos o bem que devemos aos outros, apreciamos aquilo que nos foi dado e alegramo-nos com isso. Experimentamos uma "energia calma" e ficamos mais próximos, pela partilha, dos que nos rodeiam.
Ao reconhecermos o bem que devemos aos outros estamos a direccionar-nos para o exterior e rompemos o laço egoísta entre "nós", as nossas "possessões" e "riquezas". Tal implica humildade. Implica também aceitação (de que somos receptores de um benefício) a qual, por sua vez, requer reflexão, responsabilidade, desprendimento. É esse, no fundo, o caminho da gratidão: Um caminho de consciencialização, humildade, reconhecimento, aceitação e maturidade.
Um caminho que nos vai mostrando o que é realmente significativo e ajuda a desvalorizar o que é acessório e irrelevante. Um caminho de contemplação do belo milagre da vida.
Nota: O post de hoje é a repetição de um outro do meu anterior blog, pois ao ler este agradecimento fiquei contagiada com a força que dele emana e não resisti a registar, também aqui, o que significa, para mim, este caminho tão exigente de aprendizagem e, simultaneamente, tão "GRATIFICANTE".
Porque é a intensidade com que cada momento é vivido que o pode tornar eterno, deixamo-vos uma cena magnífica do filme "Amargo Pesadelo" que retrata a possibilidade de um momento de perfeita sintonia entre um menino autista e um desconhecido. Um momento que se eterniza na nossa memória. No efémero podemos viver, de facto, a eternidade. Bom domingo!
"Estamos a pôr a felicidade sempre em coisas que não temos. Estamos a adiar a nossa felicidade. Quando, o que me parece é que devemos ser felizes agora e como estamos. (...)
Só sei responder que o sofrimento faz parte da vida. Temos que aprender com o sofrimento. Aprender a ser felizes com o que temos ao nosso alcance."
Bento Amaral
"Bento é um exemplo de que não nos devemos resignar perante a falta de mobilidade e que isso não pode - nem deve - fazer-nos desistir dos nossos sonhos. Se nos convencermos de que a cadeira de rodas não significa nada, ela não significa mesmo nada. É uma decisão mental. E um grande passo na vida de cada um de nós."
Salvador, Lições de Vida
"Pode parecer falso, mas acredito no que Bento Amaral diz… difícil pôr na prática. Difícil entender o que não se vive. Difícil viver o difícil, o sofrimento inerente à própria vida… a FELICIDADE, CONSTRÓI-SE.
A vida é mesmo uma descoberta e uma luta contínua que se adapta a todas as circunstâncias... apenas muitas vezes não temos a capacidade de ver, sentir e prosseguir...
Há muitas formas de "paralisia"... difícil reconhecê-la, aceitá-la a aprender a contorná-la, dando o valor à vida que a vida merece e que todos nós precisamos para simplesmente aprendermos a VIVER!
“Não perguntes à vida o que ela te pode dar, mas sim o que lhe podes oferecer a ela.”
Viktor Frankl
“Tudo pode ser retirado a um homem, excepto a última das liberdades humanas: Escolher a atitude a seguir perante determinadas circunstâncias, escolher o seu próprio caminho.”
Ibidem
Foi no horror da vivência em quatro campos de concentração (nomeadamente os de Auschwitz e Therezin), durante o período compreendido entre 1942 e 1945, que Viktor Emil Frankl, médico psiquiatra austríaco, se confrontou com a grande questão existencial que daria origem à sua obra terapêutica: Que sentido encontrar na vida para nos dar motivação, coragem de continuar?
“Reduzidos a condições de miséria e pavor, homens e mulheres habitualmente medíocres elevavam-se à dimensão de santos e heróis, mostrando-se capazes de extremos de generosidade e auto-sacrifício sem a esperança de outra recompensa senão a convicção de fazer o que era certo. A privação despia-os da máscara de egoísmo biológico de que os revestira uma moda cultural leviana e trazia à tona a verdadeira natureza do ser humano: a capacidade de autotranscendência, o poder inesgotável de ir além do círculo dos seus interesses vitais em busca de um sentido, de uma justificação moral da existência.”
O que sustentou Frankl durante os seus anos de cativeiro foi o seu grande interesse pelo comportamento humano , concluindo, depois, que esse interesse o havia salvo. Esse sentido não se tratava de um sentido para a vida em termos gerais, mas um sentido pessoal. Cada indivíduo deve encontrar e dar-se um sentido para existir, uma razão única e singular.
Seriam três, as vias que, segundo Frankl, permitiriam esse encontro:
(1) Criando um trabalho ou realizando um feito notável, ao sentir-se responsável por terminar um trabalho que depende fundamentalmente dos seus conhecimentos ou da sua acção.
(2) Experimentando um valor, algo novo, ou estabelecendo um novo relacionamento pessoal. Este é também o caso de uma pessoa que está consciente da responsabilidade que tem em relação a alguém que a ama e espera por ela.
(3) Adoptando uma atitude em relação a um sofrimento inevitável, com a consciência de que a vida ainda espera muito da nossa contribuição para com os demais.