"Há cerca de vinte anos, a afirmação de que na hora do nascimento, o cérebro já contem todos os seus neurónios, e que este número não é alterado pelas experiências vividas, constituia um dogma genericamente aceite pelos investigadores das neurociências. Actualmente, sabemos, pelo contrário, que até ao momento da morte, se verifica a produção de novos neurónios, difundindo-se até o conceito de neuroplasticidade que dá conta do facto de o cérebro evoluir continuamente em função das suas experiências, podendo ser profundamente transformado na sequência de um treino específico, como a aprendizagem de um instrumento musical ou de um desporto, por exemplo. Ora, a atenção, o altruísmo e outras qualidades humanas podem também ser cultivadas, dependendo igualmente de um saber-fazer que é possível adquirir."
Matthieu Ricard
Acreditar na capacidade de mudar pode tornar, só por si, muito mais fácil a mudança. E há boas razões para acreditar: Os nossos cérebros são plásticos, sempre a estabelecer novas ligações.As qualidades humanas podem ser deliberadamente cultivadas mediante um treino mental. Realce-se que muita da flexibilidade da personalidade do adulto acontece no contexto de novos desafios. Os desafios estão aí, a nossa capacidade de transformação também.
"Não pretendamos que as coisas mudem se sempre fazemos o mesmo. A crise é a melhor bênção que pode ocorrer com as pessoas e países, porque a crise traz progressos. A criatividade nasce da angústia, como o dia nasce da noite escura. É na crise que nascem as invenções, os descobrimentos e as grandes estratégias. Quem supera a crise, supera a si mesmo sem ficar "superado".
Quem atribui à crise os seus fracassos e penúrias, violenta o seu próprio talento e respeita mais os problemas do que as soluções. A verdadeira crise é a crise da incompetência. O inconveniente das pessoas e dos países é a esperança de encontrar as saídas e soluções fáceis. Sem crise não há desafios, sem desafios, a Vida é uma rotina, uma lenta agonia. Sem crise não há mérito. É na crise que se aflora o melhor de cada um. Falar de crise é promovê-la, e calar-se sobre ela é exaltar o conformismo. Em vez disso, trabalhemos duro. Acabemos de uma vez com a única crise ameaçadora, que é a tragédia de não querer lutar para superá-la".
Texto atribuído aEinsteinnuma análise das crises do século 20
Não existe uma contradição entre optimismo e aceitação dos problemas reais ou aspectos negativos de uma situação, mas entre optimismo e passividade ou recusa absoluta de qualquer estratégia que possa ajudar a resolver problemas ou a melhorar uma situação.
“O pessimismo é do humor, o optimismo da vontade.”
Alain
Tal Ben-Shahar perspectiva os optimistas realistas como “optimalistas”: Não aqueles que acreditam que tudo acontece pelo melhor, mas os que aproveitam ao máximo as coisas que ocorrem. Este professor de Harvard que se tornou extremamente popular no âmbito da Psicologia Positiva apresenta-nos três exercícios optimalistas, a que chama PRP, aplicados na sua vida:
(P) – Permissão para ser humano: permitir-se simplesmente sentir o que está a sentir, permitir-se ter variações de humor, altos e baixos, sucessos e fracassos. Tal Ben-Shahar quando se sente em baixo – por exemplo, após dar uma má palestra – recorda a si mesmo que nem todas as suas apresentações podem ser dignas de um Nobel. Algumas serão menos eficazes que outras - "learn to fail or fail to learn".
(R) – Reconstrução é a fase que se segue. Analisam-se os pontos fracos, aprendendo-se lições para o futuro sobre o que funciona e o que não resulta.
(P) – Perspectiva – reconhecer que aquilo que num determinado momento assume uma importância extraordinária, no grande contexto da vida, não tem, afinal, grande importância.
Ser optimista não significa negar as emoções tristes ou dolorosas. Quando morre um ente querido é normal e saudável fazer um período de luto. É natural sentirmo-nos tristes. O que não devemos é fecharmo-nos na tristeza durante muito tempo. É sempre mais fácil, menos custoso, em termos de energia psicológica, deixar-se ir no sentimento de infelicidade do que lutar contra ele. Inversamente, fazer durar o bem-estar necessita de mais esforços. Ser feliz dá mais trabalho do que sofrer. Um trabalho árduo, mas compensador.
“Tranquilizai-vos: Não sou um desses profetas do apocalipse que, regularmente, anunciam o fim do mundo. Não vos quero falar do fim do mundo, mas do fim de um mundo, o nosso. Porque o que vivemos neste momento é, sem dúvida, histórico. Só temos um pouco de consciência porque as civilizações terminais continuam a funcionar, mesmo que seja o vazio a dar a ilusão de solidez antes do colapso. Aconteceu no passado com o império romano ou num passado mais recente com a URSS.(…)
Reparem no sucesso do manifesto de Stéphane Hessel “Indignai-vos!”.
É um sinal, entre outros, que nos mostra estarmos na véspera de uma explosão moral.
O compromisso de alcançar uma sociedade mais justa e respeitadora dos homens e da Terra... Mas lá chegar não será simples, pois nem tudo será de deitar fora da antiga. Ela trouxe-nos uma liberdade individual jamais alcançada na história. Tornámo-nos senhores de nós próprios e nada nos poderá fazer renunciar a esta conquista. O problema é que esta liberdade se articula com o dinheiro como padrão universal das trocas. Como fazer para que o dinheiro deixe de dominar a sociedade sem perder a liberdade? A solução não virá do centro, mas das periferias dos nossos pequenos mundos de amor, de humanidade e de gentileza que não cessam de crescer. Um operador do mercado financeiro, mesmo que ganhe milhões, não é nada comparado a um educador ou a uma enfermeira. Dizê-lo, é já dar um grande passo.”
Jean-Claude Kaufmann, Notre civilisation est à bout de souffle
“Um texto antigo chamado Avatamsaka Sutra descreve o universo como uma rede infinita gerada pelo desejo de Indra, uma divindade hindu. Em cada conexão dessa rede infinita há uma jóia maravilhosamente polida e infinitamente facetada, que reflecte, em cada uma de suas faces, todas as faces de todas as outras jóias da rede. Uma vez que a própria rede, o número de jóias e o número de faces de cada jóia são infinitos, o número de reflexões também é infinito. Quando qualquer jóia nessa rede infinita é alterada de qualquer forma, todas as outras jóias na rede também mudam.
A história da rede de Indra é uma explicação poética para as conexões algumas vezes misteriosas que observamos entre eventos aparentemente não-relacionados. [...] À primeira vista, experiências envolvendo partículas subatómicas conduzidas ao longo de algumas décadas sugerem que tudo o que foi conectado num momento retém essa conexão para sempre.
Tal como as jóias da rede Indra, qualquer coisa que afecte uma dessas diminutas partículas, afecta automaticamente outra, independentemente do quão separadas estiverem pelo tempo ou espaço”
Yongey Mingyur Rinpoche, A alegria de viver
Este Dia da Terra aqui sinalizado, de uma forma tão inspiradora, remete-nos, mais uma vez, para a necessidade de nos consciencializarmos para a interligação entre tudo e todos, para as consequências avassaladoras que pode ter cada um dos nossos actos (para o bem e para o mal, como já referimos na Interligação I e II), para a nossa responsabilidade nesta CASA que é de todos. Lembremo-nos que a escolha está nas nossas mãos.
Numa experiência feita na Universidade Carnegie-Mellon (EUA) por Solomon Ash, nos anos 50, foi pedido aos estudantes para compararem o tamanho de algumas linhas traçadas numa folha de papel: Maiores? Mais pequenas? Uma tarefa que uma criança de 5 anos faria sem dificuldade. Mas antes de os alunos decidirem, era-lhes dada a resposta de um grupo de 7 colegas. Em certos casos, o grupo dava uma resposta unânime, mas falsa. Para surpresa dos investigadores três quartos dos alunos escolheram, pelo menos uma vez, a mesma resposta do grupo, embora ela fosse claramente falsa. Solomon Ash morreu em 1996 e até ao fim da sua vida procurou entender o que poderia explicar esta incrível abdicação dos seres humanos perante as más escolhas dos seus semelhantes. David Servan-Schreiber dá-nos outro exemplo: o de Pedro que está numa sala de espera e repara no fumo que sai do sistema de ventilação. Pedro olha para as pessoas à sua volta, mas parece que ninguém nota e ele retoma a sua leitura. No entanto, sente um cheiro a queimado. Levanta, novamente, a cabeça e não vê nenhuma reacção (cada um lê tranquilamente a sua revista). Então, Pedro convence-se de que o cheiro não é assim tão forte e volta à sua leitura. Nesta experiência, os companheiros de Pedro eram actores pagos para não reagirem. Foram necessários 10 minutos para que Pedro saísse da sala e se consciencializasse de que algo não estava bem.
Será que um grupo nos pode fazer acreditar no que quer que seja? Fazer acreditar que um fogo que nos ameaça, não existe? O que é que explica este comportamento?
Parte da resposta estará no funcionamento do nosso cérebro: Quando uma pessoa apreende aquilo que o grupo escolheu de forma unânime, é a própria percepção do objecto que se modifica. Tudo se passa como se o sujeito da experiência deixasse de ver a realidade, modificada pelas opiniões dos outros. A linha que o grupo disser que é maior, assim será vista por cada indivíduo. E se, por acaso, o indivíduo tomar a decisão de se exprimir contra a conclusão unânime do grupo, é a região do medo, do seu cérebro emocional, que será activada. Como se soubesse que é perigoso afirmar a verdade perante um grupo que não a vê.
Não somos, de facto, totalmente “donos” daquilo que percebemos. Mas será essa consciência que nos alerta para uma responsabilidade acrescida: A de defender a “verdade” que existe para além dos conformismos. Só a coragem e integridade podem vencer o medo de rejeição dos outros.
Cada vez mais, necessitamos desta coragem para orientar a nossa vida de uma forma diferente.
Fonte: Le cerveau de l´independance, David Servan-Schreiber